31/07/2009

Eclipse na caserna

Dificuldades da comunicação verbal

DIZ O CAPITÃO AO ALFERES:
- "Vai haver amanhã um eclipse do sol. Mande formar a Companhia em farda de trabalho na parada, onde explicarei o fenómeno que não acontece todos os dias. Se chover, não se verá e, por isso, deixe a Companhia na caserna".

O ALFERES TRANSMITE A ORDEM AO FURRIEL:
- "Por ordem do nosso Capitão, amanhã vai haver eclipse do Sol em farda de trabalho. Toda a Companhia forma na parada, onde o nosso Capitão dará as explicações, o que não acontece todos os dias. Se chover o eclipse é na caserna."

O FURRIEL DIZ AO CABO:
- "O nosso Capitão vai fazer um eclipse do Sol na parada se chover, o que não sucede todos os dias, não se vê nada; então o Capitão, dará a explicação em farda de trabalho na caserna."

ENTÃO, O CABO TRANSMITE A ORDEM AOS SOLDADOS:
- "Soldados, amanhã, para receber o eclipse que dará a explicação sobre o nosso Capitão em farda de trabalho, devemos estar na caserna onde não chove todos os dias.

POR FIM, COMENTÁRIOS ENTRE OS SOLDADOS:
- Amanhã, se chover, parece que o capitão vai ser eclipsado na parada. É pena que isso não aconteça todos os dias...

5 comentários:

Vitor Chuva disse...

Olá João Soares!

"Quem conta um conto, acrescenta-lhe um ponto"

Este é um dos clássicos exemplos da arte de bem deturpar uma qualquer comunicção, sempre presente quando este tema é abordado como matéria de estudo -levesinho como convém com este tempo de Verão.

Um abraço.
Vitor Chuva

A. João Soares disse...

Caro Vítor Chuva,
Este texto não traduz propriamente a arte de bem deturpar. Representa a fragilidade e falta de credibilidade inerente à comunicação verbal. O professor de psicologia da faculdade de Lisboa, em 1966 dizia numa aula que, na sequência de um acidente de automóvel na marginal de Cascais, uns estudantes que estavam a preparar uma tese acompanharam o processo e verificaram que as testemunhas em tribunal juravam as coisas mais díspares acerca de dados insgnificantes como a cor do carro e outras coisas que era suposto terem ficado gravadas na memória.
Sobre estes problemas sugiro a leitura do post Eficiência na comunicação.

Bom fim-de-semana
Um abraço
João

Fernanda disse...

Caro amigo João,

Tenho uma vaga ideia desta história que demonstra claramente a dificuldade de comunicação entre as pessoas, sobretudo de extractos sociais diversos, dando muitas vezes origem a grandes trapalhadas, como esta.

Beijo

A. João Soares disse...

Cara Amiga Ná,

É esse o cerne desta estória, de origem muito antiga, talvez tão antiga como os eclipses!!! Ou como os militares!!!
Penso que em miúdo vi essa estória numas Selecções no capítulo «piadas de caserna», e o caso passava-se num navio, o que tem lógica porque os marinheiros estão mais ligados aos astros – em cada navio é medida a altura do sol todos os dias ao meio-dia para calcular a latitude.

Esta estória está relacionada com uma regra dos militares: quando dão ordens, devem falar «clarinho, clarinho, para militar perceber!», porque os soldados, muitas vezes analfabetos eram impenetráveis a palavras diferentes das do seu curto dicionário de ouvido.

Beijos
João

Maria Letra disse...

Bem, amigo João Soares, para mim este texto retrata, ainda, o seguinte: com a ordem decrescente de hierarquias, constatamos verificar-se uma ordem crescente de capacidades de interpretação e memorização da ordem dada pelo capitão. A utilização de figuras hierárquicas foi, quanto a mim, uma boa forma de relatar esta má interpretação da ordem dada.
Bom fim-de-semana.
Maria Letra