07/08/2009

"O Valor Relativo das Coisas"

Tendo como “pretexto” a recriação do percurso feito pelo elefante Salomão, personagem central do seu livro “Viagem do Elefante”, José Saramago embarcou numa curta viagem que o levou a vários locais por ele há anos atrás visitados e descritos num dos seus livros, tendo a mesma sido filmada e apresentada por uma estação de televisão, sob a forma de documentário. Começo por dizer que, apesar dos maus tratos que ele deu ao Português em alguns dos livros que escreveu, eliminando pontos e vírgulas, para além de outros símbolos ortográficos que tanto jeito dão a quem tenta decifrar o que lá está escrito, ainda assim eu acho que ele é o maior escritor Português de sempre. Diz a sua mulher que ele atingiu o estágio da sabedoria sem que disso se tenha dado conta. Pessoalmente, penso que se ele não é um “sábio” não estará muito longe disso; em tudo aquilo que escreve demonstra um profundo conhecimento da natureza humana, descrevendo com profundidade e minúcia os sentimentos que nos fazem mover, adiantando a explicação para muitos dos nossos comportamentos e atitudes.
Com toda esta admiração que sinto por aquilo que conheço do seu trabalho, difícil seria não achar comovente o conteúdo do referido documentário a que atrás fiz menção. Nele, o enfoque é essencialmente no homem, e não tanto no escritor, sendo que as imagens que nos são dado ver mostram uma pessoa manifestamente debilitado, frágil, com aspecto de doente, dependente de terceiros, que a certa altura confessa: “sem a Pilar (sua mulher) sentir-me-ia perdido, sem saber o que fazer”. A dado passo do quase monólogo em que as suas reflexões nos são apresentadas, diz ele que o que fez ao longo da sua vida como escritor de modo algum justificaria tanto prémios, condecorações, títulos de doutoramento , o que certamente poderá parecer estranho, ou talvez não! Aquela viagem, qual peregrinação aos lugares da memória, fazendo-se acompanhar das pessoas que lhe são mais próximas , mais sugere ser de despedida, residindo talvez aqui a explicação para a aparente desvalorização que medalhas , prémios e homenagens recebidas parecem ter, agora, sofrido a seus olhos. Confessando ter encontrado já tarde a felicidade que procurava na vida, na pessoa da mulher com quem agora vive e diz adorar, soubesse ele a que porta bater e certamente que de bom grado trocaria todas as honrarias recebidas pela possibilidade de poder prolongar a sua estadia junto das pessoas que ama, continuando a fazer aquilo que tão bem sabe!

Vitor Chuva
07-08-2009

4 comentários:

Celle disse...

Olá Vitor Chuva,
admiro sua forma simples e clara de expor seu pensamento.
Tenho lido seus posts.
Trata assuntos corriqueiros, comuns de maneira tão leve e peculiar tornando-os atrativos e interessantes.
Nesta sua publicação, o José Saramago não estaria humildemente se diminuindo para enaltecer e valorizar sua amada esposa, deixando-a sentir o doce prazer, a satisfação do reconhecimento, preferencialmente, partindo do marido e companheiro, já acostumado as honrias? Ou será que se sentindo fraco, cansado não estará reconhecendo que aqui tudo é efêmero, rápido e passageiro? Que mais vale ser amável e agradável!
Daqui nada se leva a não ser o bem que se fez!!!
Beijos
Celle

Fernanda disse...

Amigo Vitor,

Contrariamente à opinião da nossa querida Celle, eu não penso que José Saramago tenha dito o que disse só para agradar a sua amada (mesmo que o fizesse seria louvável), mas não.
Na minha opinião, obviamente, do que li dele e sobre ele, das suas parcas entrevistas, ele é um homem simples e com um enorme coração.

Sei Vitor, que já leste mais sobre Saramago do que eu, conheces bem melhor este autor polémico mas muito amado, especialmente por quem aprecia uma boa leitura.
Não será fácil ler as primeiras páginas de um qualquer livro seu, pelos aspectos que tão bem o Vitor relata, como sempre, mas logo, quase como que por magia, a leitura começa a fazer sentido, é como se realmente a pontuação não fosse necessária.
Por alguma razão ele foi Prémio Nobel.

Obrigada Vitor por este belíssimo pedaço de excelente leitura.
Parabéns.

Beijos

Maria Letra disse...

Eis aqui um texto sobre José Saramago que reune uma boa capacidade de análise, um profundo conhecimento literário da sua obra e muita sensibilidade crítica, de tal maneira que fiquei com um nó na garganta. Parabéns, Victor Chuva, até porque falou de alguém que admiro tantíssimo, mesmo quando omite vírgulas, parágrafos ou mesmo quando recorre a pouco para dizer muito sobre o que pensa. Desse todo consegue-se perceber, facilmente, o homem que Saramago é e o que sente dum mundo onde nem sempre se sentiu bem.

Vitor Chuva disse...

Olá Celle; Fernanda; Mizita!

Obrigado a todas por me terem feito companhia nesta viagem - mais excursão familiar, diria - com o José Saramago, e pelos simpáticos comentários feitos durante a mesma. Obrigado, mais uma vez.

Um beijinho.

Vitor