11/06/2009

Um conto para comemorar o 2º aniversário do "SEMPRE JOVENS"

UMA ROSA NO PÁRA-BRISAS



— Doutora Alice, vai ter que esperar um tempinho… as consultas estão atrasadas mais de uma hora! O senhor doutor esteve a operar toda a manhã e já sabe como é… Se quiser, pode ir dar uma voltinha, que eu guardo-lhe a vez…
Alice pediu à enfermeira para lhe ficar com o imenso sobrescrito com as radiografias, análises e resultados de outros exames. Saiu da sala de espera do consultório sem olhar os outros doentes. Não estava com paciência para encarar algum conhecido a quem tivesse que mentir sobre o seu estado de saúde. Tinha por hábito ler todos os relatórios antes de os entregar ao médico.
Afinal, pensou, será que valeria a pena arrostar com toda aquela série de internamentos, cirurgias, quimioterapia, queda de cabelo, enjoos, vómitos de arrancar as entranhas, enfim, o calvário por que tinham passado muitas das suas amigas?
Enquanto caminhava em direcção ao centro comercial, acabou por achar que não havia razão para o sacrifício. Sofrer para quê? Que sentido faria prolongar a vida num mundo que, de um dia para o outro, se virara de pernas para o ar? A filha iria mudar-se para casa do “namorado”, o marido, que se queria divorciar para viver — vejam só — com a dona Inês, a inefável secretária, delicodoce e prestável, a “viúva-alegre”, como todos lhe chamavam.
Reformada há poucos meses, não sabia bem o que fazer ao tempo disponível. Passou a levantar-se tarde, sempre sonolenta e irritada, sem vontade para decidir com que se entreter. Na verdade, só faltava a operação ao peito!
Já no centro comercial, entrou numa sapataria de luxo. Comprou dois pares de sapatos com uma rapidez que a surpreendeu. Dantes, divertia-se a correr as lojas todas, provar roupas e mais roupas, sapatos e mais sapatos e, quase sempre rejeitar pelas razões mais diversas e nem sempre lógicas. Talvez mesmo, pelo simples hábito de o fazer. Como se fosse um jogo. Ela fingia que queria comprar, as empregadas fingiam que não se importavam com o trabalho inglório que tinham. Agora, com a ameaça de uma vida mais curta e difícil, nada disso fazia sentido. Para quê, mesmo sem consciência do que fazia, humilhar aquelas criaturas? Decerto que tinham os mesmos problemas e aspirações. Seres humanos como ela própria, com igual direito à vida.
E, a propósito, tomou uma decisão irreversível. Faltar à consulta e aproveitar a vida que lhe restava para viajar, conviver, fazer umas quantas loucuras que uma vida espartilhada por preconceitos sociais ridículos a inibira de fazer.
Resolveu ir para casa fazer as malas e decidir para onde seria a grande viagem. À entrada da garagem do edifício da empresa onde Artur trabalhava e onde sempre estacionava o carro, deu de caras com o velho porteiro.
— Ai senhor Jerónimo, nem me lembrei que agora não tenho o direito de pôr o carro cá dentro…
— Ó senhora doutora, por quem é! O senhor Engenheiro deu-me ordens para a deixar entrar sempre que quisesse. Era o que mais faltava! E mesmo que não o fizesse… agora, com os despedimentos, cada dia há mais lugares…
Alice apreciou o gesto do ex-marido. Era muito típico dele. Egoísta, manhoso, mulherengo, mas sabia fazer as coisas com uma certa elegância, digamos assim. Deixava sempre uma porta aberta no mal que causava às pessoas. Talvez para ser franqueada num dia em que as conveniências mudassem.
Porém, havia ainda uma surpresa que lhe estava reservada: quando chegou ao carro, deparou com uma imponente rosa vermelha no pára-brisas. A rosa da sua preferência. Fora com certeza a filha que pusera Artur ao corrente do seu estado de saúde e da consulta a que deveria comparecer. Ficou perturbada. Comovida com a atenção, não conseguiu evitar que algumas lágrimas lhe rolassem cara abaixo. Talvez a tal porta que se começasse a abrir… Será que Artur já não vai casar com a secretária? Aquele homem nunca deixou de ser uma criança grande. E era aí que residia todo o seu encanto…
De repente, tudo passou a ter outro sentido. Pegou na rosa, apertou-a contra o peito e apressou-se em direcção ao consultório. Talvez o médico já lá estivesse. Ao sair da garagem cruzou-se com um casal de jovens apaixonados, de tão agarrados que vinham. Coitados, pensou, ainda estão cheios de ilusões. Porém o ar de espantado, mesmo escarninho, do homem assustou-a um pouco. E ele não tirava os olhos da rosa. Estranho…
Enquanto Alice quase corria rua fora, o casal recém-chegado deteve-se junto do carro dela. O rapaz olhava o pára-brisas indignado.
— Então não é que aquela gaja, toda bem arreada, me palmou a rosa que te deixei no carro? É preciso ter-se lata!
— Mas o meu carro não é esse — respondeu a rapariga —, é aquele lá atrás!
Fernando Vouga

3 comentários:

A. João Soares disse...

Caro Amigo Fernando Vouga
Várias sensações agradáveis deixam-me sem saber por onde começar. Estou feliz por ver aqui a mão do criador deste blog que completa 2 anos em 22 de Agosto. O pai deste espaço, embrenhado da preparação da segunda edição do seu livro de que nos envia esta rica amostra, tem por este motivo estado desviado do SJ. Mas aqui está a comemorar o 2º aniversário. Como está muito antecipado não o dispensamos de nova presença na data da festa.
Também não posso deixar de expressar o gosto que tive de ler o conto. Bem haja por este belo presente de sua autoria. A namorada não deve ter ficado muito desgostosa, mas o engano criou uma nova vida na Doutora Alice. Há momentos de felicidae trazidos por um erro alheio. É a roda da vida.
Estas páginas estão à sua disposição sempre que nos queira presentear com mais uma obre sua.

Um forte abraço
João

Luis disse...

Amigo Fernando Vouga,
Junto-me aos comentários do João no elogio ao conto por si apresentado. Nele apresenta diversas facetas da vida actual o que lhe confere muita realidade!
Esperamos que na data exata do 2º aniversário nos conceda o previlégio de outro conto inédito.
Tal como referido pelo João aquele pequeno engano foi suficiente para dar à Drª Alice aquele sopro de alento tão necessário às vezes para vencermos momentos difíceis que nos aparecem na vida.
Um abraço

Fernanda Ferreira disse...

Meu caro Sr. Fernando Vouga,

Peço desculpa pela formalidade no trato, mas como entenderá não tinha tido o prazer de conhecê-lo, admito mesmo que quando li o seu deslumbrante texto não me atrevi a fazer qualquer comentário sem primeiro saber quem era.

Naturalmente que nem vou tecer mais qualquer comentário sobre o mesmo, só pedir-lhe que nos acompanhe e que por favor nos dê a imensa honra de nos presentear com mais.

Muito obrigada,



Fernanda Ferreira