08/04/2010

Vida de executiva de sucesso

Transcrição de um texto recebido por e-mail que convém ler até ao fim

Uma executiva de sucesso bem-sucedida em acção

Foi tudo muito rápido. A executiva bem-sucedida sentiu uma pontada no peito, vacilou, cambaleou. Deu um gemido e apagou. Quando voltou a abrir os olhos, viu-se diante de um imenso Portal.

Ainda meio zonza, atravessou-o e viu uma miríade de pessoas. Todas vestindo cândidas túnicas e caminhando despreocupadas. Sem entender bem o que estava acontecendo, a executiva bem-sucedida abordou um dos passantes:

- Enfermeiro, eu preciso voltar urgente para o meu escritório, porque tenho um meeting importantíssimo. Aliás, acho que fui trazida para cá por engano, porque meu convénio médico é classe A, e isto aqui está me parecendo mais um pronto-socorro. Onde é que nós estamos?

- No céu.

- No céu?...

- É.

- Tipo assim... o céu, CÉU...! Aquele com querubins voando e coisas do género?

- Certamente. Aqui todos vivemos em estado de gozo permanente.

Apesar das óbvias evidências nenhuma poluição, todo mundo sorrindo, ninguém usando telefone celular, a executiva bem-sucedida custou um pouco a admitir que havia mesmo apitado na curva.

Tentou então o plano B: convencer o interlocutor, por meio das infalíveis técnicas avançadas de negociação, de que aquela situação era inaceitável. Porque, ponderou, dali a uma semana ela iria receber o bónus anual, além de estar fortemente cotada para assumir a posição de presidente do conselho de administração da empresa.

E foi aí que o interlocutor sugeriu:

- Talvez seja melhor você conversar com Pedro, o sindico.

- É? E como é que marco uma audiência? Ele tem secretária?

- Não, não. Basta estalar os dedos e ele aparece.

- Assim? (...)

- Pois não?

A executiva bem-sucedida quase desaba da nuvem. À sua frente, imponente, segurando uma chave que mais parecia um martelo, estava o próprio Pedro.

Mas, a executiva havia feito um curso intensivo de approach para situações inesperadas e reagiu rapidinho:

- Bom dia. Muito prazer. Belas sandálias. Eu sou uma executiva bem-sucedida e...

- Executiva... Que palavra estranha. De que século você veio?

- Do 21. O distinto vai me dizer que não conhece o termo 'executiva'?

- Já ouvi falar. Mas não é do meu tempo.

Foi então que a executiva bem-sucedida teve um insight. A máxima autoridade ali no paraíso aparentava ser um zero à esquerda em modernas técnicas de gestão empresarial. Logo, com seu brilhante currículo tecnocrático, a executiva poderia rapidamente assumir uma posição hierárquica, por assim dizer, celestial ali na organização.

- Sabe, meu caro Pedro. Se você me permite, eu gostaria de lhe fazer uma proposta. Basta olhar para esse povo todo aí, só batendo papo e andando a toa, para perceber que aqui no Paraíso há enormes oportunidades para dar um upgrade na produtividade sistémica.

- É mesmo?

- Pode acreditar, porque tenho PHD em reengenharia. Por exemplo, não vejo ninguém usando crachá. Como é que a gente sabe quem é quem aqui, e quem faz o quê?

- Ah, não sabemos.

- Entendeu o meu ponto? Sem controle, há dispersão. E dispersão gera desmotivação. Com o tempo isto aqui vai acabar virando uma anarquia. Mas nós dois podemos consertar tudo isso rapidinho, implementando um simples programa de targets individuais e avaliação de performance.

- Que interessante...

- É claro que, antes de tudo, precisaríamos de uma hierarquização e um organograma funcional, nada que dinâmicas de grupo e avaliações de perfis psicológicos não consigam resolver.

- !!!...???...!!!...???...!!!

- Aí, contrataríamos uma consultoria especializada para nos ajudar a definir as estratégias operacionais e estabeleceríamos algumas metas factíveis de leverage, maximizando, dessa forma, o retorno do investimento do Grande Accionista... Ele existe, certo?

- Sobre todas as coisas.

- Óptimo. O passo seguinte seria partir para um downsizing progressivo, encontrar sinergias high-tech, redigir manuais de procedimento, definir o marketing mix e investir no desenvolvimento de produtos alternativos de alto valor agregado. O mercado telestérico, por exemplo, me parece extremamente atractivo.

- Incrível!

- É óbvio que, para conseguir tudo isso, nós dois teremos que nomear um board de altíssimo nível. Com um pacote de remuneração atraente, é claro. Coisa assim de salário de seis dígitos e todos os fringe benefits e mordomias de praxe. Porque, agora falando de colega para colega, tenho certeza de que você vai concordar comigo, Pedro. O desafio que temos pela frente vai resultar em um Turnaround radical.

- Impressionante!

- Isso significa que podemos partir para a implementação?

- Não. Significa que você terá um futuro brilhante... se for trabalhar com o nosso concorrente. Porque você acaba de descrever, exactamente, como funciona o Inferno...

Max Gehringer
(Revista Exame)

15 comentários:

Fernanda disse...

Querido amigo João,

Por acaso este também já tinha passado cá por casa...
mas é exactamente assim.
Ironicamente, este papel cabe a todos os executivos, não só a ela.
Infelizmente, enquanto cá andam, fazem a nossa vida um verdadeiro Inferno.

Beijinhos

direitinho disse...

Parece-me que a Ná concluiu todo o texto e que já nada se pode acrescentar.

Este mundo acordou de "patas" para o ar. Os poderosos protegem-se e aumentam-se explorando sempre mais a classe plebleia.
Não tardará muito que vão silenciar alguns de nós que blogamos muito alto.
A verdade continua a ser coisa rara e a justiça incomodativa só para os mais pobres.
Tantas mordomias para os politicosecos de cabeça oca.

A. João Soares disse...

Querida Ná,

Lamento que haja repetição de posts, mas já não se deve desperdiçar os comentários.

Caro Direitinho,

Quanto ao seu comentário tal como ao da Amiga Ná, diria que a lição não é tanto acerca da exploração dos executivos como do inferno em que eles vivem e nos fazem viver, numa vida mais intensa do que o necessário, em que em vez da simplicidade e felicidae do céu, criam um stress permanente com permanentes complicações, tornando tudo muito difícil e «intelectual» (no pior sentido). Em vez da vida despreocupada de Adão e Eva e dos humanos de outros tempos, temos uma corrida louca para um fim de vida fatigado e de sofrimento.
Por isso com a sua insatisfação com a calmaria do céu e não querendo deixar a sua rotina, ela ficaria melhor no Inferno, porque estava habituada a uma vida infernal.
Este post é um reforço, um elogio, à vida que neste espaço se preconiza, em que se defende que o dinheiro não é tudo, havendo valores muito superiores.

Beijos à Ná e um abraço ao Direitinho
João

Fernanda disse...

Querido amigo João,

Peço desculpa se me fiz entender mal.

Não há repetição do post.

Eu é que já tinha lido esse mail cá em casa.
Mas é oportuníssimo.

Desculpe se o induzi em erro.

Beijinhos

Canduxa disse...

Amigo João,

esta mensagem descreve bem a vidinha desgraçada que um executivo tem, se quiser manter-se no activo e bem sucedido.
Mas acredito que há competitividade a mais e por isso calcam-se todos por onde se passa a troco de mais uma promoção, de um bónus ou de uma oportunidade que muitas vezes nem é dentro da empresa.....
E o dinheiro gasta-se e quanto mais se tem mais se gasta porque deixamos de dar valor às pequenas coisas.
Acontece que muitos jovens que agora vivem já foram educados para conseguir serem sempre os melhores e nunca lhes ensinam que a melhor recompensa é a sua tranquilidade, viver a sua verdade e usufruir do Mundo belo onde vive. Claro que tem que se ser competente, responsável e criativo...mas não é o que acontece e posso bem afirmar, porque vejo a competitividade dos jovens com quem trabalho.
Ah, e sentido de justiça é algo que quase já não existe e muitas vezes quem mais trabalha é quem é menos valorizado.
Acredito que qualquer dia este “inferno” pega de tal maneira fogo que dá um estouro e vamos outra vez começar tudo de novo. Voltar à terra, que dá pão, à troca de produtos,
aos passeios pelo campo e a cultivar amigos verdadeiros.
Acredito, até pode já nem ser no meu tempo...mas que isto tem que dar uma volta, tem mesmo!
Quem aguenta viver sempre neste inferno de vida?
Não há tempo para nada e como andam todos a tentarem ser os melhores, nem tempo têm para ter família.....uma tristeza!

Um abraço
Canduxa

A. João Soares disse...

Querida Ná,

Por quê pedir desculpa? Já
lhe enviei uma «maldição» que deve estar a chegar!!! Querida amiga, nunca devemos empolar, sobrevalorizar, qualquer pequeno mal entendido. Já me conhece e sabe que o meu desejo é sempre esvaziar o que possa ser tóxico e, por isso, interpretar as coisas sempre da melhor maneira.

Beijos de muita consideração pelos seus méritos.
João
a

Fernanda disse...

Querido amigo João,

Nada disso, pedi desculpa porque sou bem educada, porque não fui clara, mais nada.
Entre nós não há mais mal entendidos.
Retire lá essa "maldição" antes que ela chegue :)))) ahahahaha
Como se eu acreditasse nisso !!!!

Beijinhos

Ana Martins disse...

Caro João,
Pedro tinha razão, o lugar da executiva era mesmo no inferno, já que ela não conseguiria apreciar a beleza do paraíso.

Beijinhos,
Ana Martins

Luis disse...

Caríssimo João,
Só Tu para descobrires coisas destas. Executiv(o)as dest(e)as deviam ser executad(o)as à nascença pois são o exemplo do que não tem razão de existir na nossa sociedade!
Um abraço amigo.

A. João Soares disse...

Querida Ná,

Já interrompi a marcha da «maldição» que, assim, não chegou aí!!! E enviei urgente mais uma bênção para premiar a sua «boa educação»!!!
Beijos
João

A. João Soares disse...

Querida Ana e caro Luís,

Não podemos condenar os executivos por serem eficientes nas suas funções. Ficávamos sem cérebros válidos! O mal está na evolução das sociedades que têm sobrevalorizado a importância do desempenho, na óptica do lucro, dos resultados a qualquer custo. O aparecimento de sucessivos modelos de telemóveis, de GPS, de ipod e de ipad, de carros, de TV, etc. etc. são furto da organização e gestão moderna.
Se paramos isso drasticamente, sentimos a falta de progresso, para a ostentação e o consumismo em que quase toda a gente alinha entusiasticamente.
A humanidade estimula esses exageros dos executivos, aplaude, consome, premeia-os na vida quotidiana.

O mal está nas pessoas comuns, em cada um de nós, com poucas excepções. Essa deve ser a lição do post: pensarmos na forma como encaramos os hipermercados e aceitamos a publicidade de novas futilidades que nos alienam.

Cumprimentos
João

Fernanda disse...

Querido amigo João,

Ufa! que alívio!!!

Acho que já cá chegou, sinto-me muito bem, mesmo muito bem:))))
Obrigada amigo.

Beijinho

Celle disse...

Caros colegas
Sou casada com um empresário executivo e não se pode generalizar a esculhambação.
Existem empresários tão bons quanto os colegas, que se preocupam com o bem estar social, com os gastos excessivos etc.
Que não aprovam o consumismo, o gastar tudo que ganha, sem se preocupar se pode ou não gasta-lo, que lutam em pró de um mundo melhor, mais humano que pagam em dia seus impostos e taxas, em dia, que criam empregos, que respeitam seus empregados e lhes dão oportunidade de vencerem e que concordam que não pode haver enriquecimento ilícito, em prejuizo da maioria, que preocupam com o meio ambiente e com o próximo assim como vocês pregam, embora vivamos num país de terceiro mundo.
Depende é da “educação e formação” de cada cidadão, assim, eu penso.
Obrigada!
Celle

A. João Soares disse...

Querida Celle,

Estou muito feliz por saber das virtudes do seu marido. Felizmente deverá haver muitos assim.
A moral do post não se aplica a pessoas concretas mas a um espírito materialista, de adoração pelo dinheiro pelo lucro, pelo êxito, esquecendo os valores éticos, morais, sociais. Infelizmente temos que concordar que nos tempos actuais, desde governantes até gestores, como é agora o caso tão falado do «patrão» da EDP, usufruem de poderes de decisão que tocam a imoralidade ou, como diz um político, a obscenidade.
Mas, querida Celle, no meio de tanta podridão há oásis exemplares e são essas excepções que nos fazem ter alguma esperança de que isto mudará para melhor.

Beijos
João

Celle disse...

Caríssimo, amigo João!
Citei meu marido, mas não falo só por ele. Na minha cidade outros empresários agem como ele. Vivemos com retiradas suficientes para vivermos com dignidade. Retirar da firma, é ameaçar nosso sustento e dos demais. Nada de aplicações na bolsa ou na poupança, uma empresa para ser sólida, como tudo na vida, precisa alem de organização, planejamento e contenção de despesas, de honrar seus compromissos. Ja superamos várias crises econômicas com este procedimento... Investir na empresa e acreditar nela é nosso lema, para que nunca os funcionários corram risco de perderem seu trabalho.
Muitas vezes as coisas não são o que parecem ser. Há aqueles que tem condições e não parecem ter, são humildes e simples vivem modestamente e são solidários estão sempre colaborando e ajudando e não há prazer maior! ... e há quem não tem nada e passam por milionário.Pobres de espirito!
O dinheiro em si não é o mal, o erro está no seu uso e consumo.
Não quero ser discriminada pelo que foi adquirido com dignidade, respeito, muita luta, sacrifício e trabalho.
Obrigada, irmão,pelas suas sábias palavras!
Celle