04/04/2010

A Fita Vermelha

Ainda sobre o tema a Escola, achei interessante publicar aqui este maravilhoso conto que nos dá conta de como era a Escola, as relações que se criavam entre alunos e professores, o amor que se estabelecia entre todos.
Felizmente para muito de nós, foi assim.

Tenho cinquenta e oito anos e tenho a honra de saber os nomes e de me lembrar dos rostos de muitas e muitos das minhas professoras/es. Lembro em particular a minha querida Maria Adriana, que me ensinou, da forma mais bela, a valorizar-me como ser humano e a ganhar a minha alta auto-estima.
Como eu amei esse tempo em que bebia sabedoria... e brincava no recreio ...e tinha amigos que nunca esquecerei.

"Eu tinha começado a ensinar. Era muito nova então. Quase tão nova como as meninas que eu ensinava. E tive um grande desgosto. Se recordar tudo quanto tenho vivido (já há mais de vinte anos que ensino), sei que foi o maior desgosto da minha vida de professora. Vida que muitas alegrias me tem dado. Mais alegrias que tristezas. Se vos conto este desgosto tão grande, não é para vos entristecer. Mas para vos ajudar a compreender, como só então eu pude compreender, o valor da vida. O amor da vida. O valor de um gesto de amor. O seu «preço», que dinheiro algum consegue comprar.

Eu ensinava numa escola velha, escura. Cheia do barulho da rua, dos «eléctricos» que passavam pelas calhas metálicas. Dos carros que continuamente subiam e desciam a calçada. Até das carroças com os seus pacientes cavalos. A escola era muito triste. Feia. Mas eu entrava nela, ou digo antes, em cada aula, e todo o sol estava lá dentro. Porque via aqueles rostos, trinta meninas, olhando para mim, esperando que as ensinasse.
O quê? Português, francês. Hoje sei, acima de tudo, o amor da vida. Com toda a minha inexperiência. Com todos os meus erros. Porque um professor tem de aprender todos os dias. Tanto, quase tanto ou até muito mais que os alunos. Mas, desde o primeiro dia, compreendi que teria nas alunas a maior ajuda. O sol, a claridade que faltava àquela escola de paredes tristes. A música estranha e bela que ia contrastar com os ruídos dos «eléctricos», dos automóveis da calçada onde ficava a escola. Até com o bater das patas dos cavalos que passavam de vez em quando.

Porque, mais que português e francês, havia uma bela matéria a ensinar e a aprender. Foi nessa altura que comecei mesmo a aprender essa tal matéria ou disciplina - ou antes, a ter a consciência de que a aprendia. Eu convivia com jovens (seis turmas de trinta alunas são perto de duzentas) que no princípio de Outubro me eram desconhecidas. Cada uma delas representava a folha de um longo livro que no princípio de Outubro me era desconhecido. Todas eram folhas de um longo livro por mim começado a conhecer. Não há ser humano que seja desconhecido de outro ser humano. Só é precisa a leitura.
Eu tinha agora ali perto de duzentas amigas. Todas aquelas meninas confiando em mim, esperando que as ensinasse; sorrindo, quando eu entrava, assim me ensinavam quanto lhes devia. Mas um dia. Eu conto como aconteceu o pior. E conto-o hoje, a vós, jovens, que podem julgar-me.

Julgar-me sabendo este meu erro. E evitarem, assim, um erro semelhante para vós mesmos. Já era quase Primavera. Na rua não havia árvores nem flores. Só os mesmos carros com o seu peso e a violência da sua velocidade. Gritos de vez em quando. Uma Primavera só no ar adivinhada. Numa turma, uma aluna faltava há dias. Era a Aurora. Morena, de grandes olhos cheios de doçura. Talvez triste. A Aurora estava doente. Num hospital da cidade, numa enfermaria. Num imenso hospital. Olhei o retratinho dela na caderneta. Retratinho de «passe», num sorriso de nevoeiro de uma modesta fotografia. Tão cheia de doçura a Aurora! Doente, do hospital tinha-me mandado saudades.
— Vou vê-la no próximo domingo — anunciei às companheiras.
E tencionava ir vê-la mesmo no próximo domingo. Mas o próximo domingo foi cheio de Sol. Sol do próprio astro, quente, luminoso. Igual e diferente, ao mesmo tempo, do sol-sorriso das meninas. E eu, a professora, ainda jovem, que gostava do Sol, fui passear. Ver mar? Campos verdes? Flores? Já nem me lembro. E da Aurora me lembraria se a tivesse ido visitar. Começava a Primavera. Adiei a visita naquele próximo domingo, para outro dia, para outro próximo domingo.

Hoje sei que o amor dos outros se não adia. Aurora esperou-me toda a tarde de domingo, na sua cama branca, de ferro. Tinha posto uma fita vermelha a segurar os cabelos escuros. Esperava-me, esperava a minha visita, cuja promessa as companheiras lhe haviam transmitido. Veio a família: mãe, pai, irmãos, amigos, as colegas.
— Estou à espera da professora…
No dia seguinte, a doença foi mais poderosa que a sua juventude, a sua doçura, a sua esperança. A cabeça escura, sem a fita vermelha, adormeceu-lhe profundamente na almofada, talvez incómoda, do hospital. Sabemos todos já, amigos, que há vida e morte. Também isso temos de aprender. Não fiquem tristes por isso. Vejam como as flores nascem quase transparentes da terra, como as podemos olhar à luz do Sol, e morrem, para de novo nascerem.
Lembrem-se como de um ovo de pássaro podem sair asas que voem tão alto em dias de Primavera. E morrem, também, e todas as primaveras nascem de novo. E, sobretudo, lembrem-se do coração de cada um de nós, desta força imensa. E não adiem os vossos gestos. Procurar alguém que sofra, que precise de nós, nem sequer é um gesto generoso, deve ser um gesto natural que se não adia. Às vezes até precisamos uns dos outros para dizermos que estamos felizes, contentes. Só para isso. Mesmo felizes precisamos dos outros.

Aurora ensinou-me para sempre esta verdade. As lágrimas que por ela chorei já não lhe deram aquela visita do próximo domingo. Nem a mim a alegria de a encontrar sorrindo, cheia de doçura, com uma fita vermelha a prender os cabelos escuros. Vermelha de sangue, como a vida. O Sol. Flores vermelhas. Aurora era o seu nome. E a sua vida uma manhã apenas que, na minha distracção ou egoísmo, não tive tempo de olhar. Uma manhã com uma fita vermelha. Que lágrima nenhuma pode reflectir."

Matilde Rosa Araújo
O Sol e o Menino dos Pés Frios
Lisboa, Livros Horizonte Lda, 2001

Imagem da Net

Fernanda Ferreira (Ná)

7 comentários:

A. João Soares disse...

Querida Ná,

Um belo texto. Nunca devemos adiar uma manifestação de carinho, porque amanhã pode já ser tarde e ficamos com uma grande dor. Por isso digo-lhe agora que a admiro, na sua sensibilidade na dedicação aos outros, e desejo que passe um bom Domingo de Páscoa e que a Primavera lhe sorria, em todos os aspectos.

Beijos
João

Pérola disse...

Nossa amiga que triste né.
Olha, eu sou professora, atualmente diretora de uma escola e perdi um aluno meu o ano passado com Aids,lógico q a situação ñ é a mesma,mas no caso dessa moça deve lhe ter doído muito.
Um fato q ñ devemos ignorar,nós nunca sabemos o q realmente pode acontecer até mesmo para aqueles q se encontram bem de saúde, portanto nos amar todos os dias é o ideal mesmo q ñ cheguemos a tempo de nos despedir.
Maravilhosa postagem,um texto exelente p/refletir.
Parabéns.
Beijos achocolatados.
Uma feliz Páscoa.
Beijokas.

Kyria disse...

Ná,
uma lição e tanto! Mas certamente que a Aurora pôde entender e aceitar aquela ausência física naquele domingo.
E também pôde sentir o imenso carinho e amor que sempre existiu no coração da mestra que chorou por não ter visto com os olhos do corpo seu corpo que partia.C
Certamente os olhos da ALMA muito admiraram, durante todos estes anos, a especial criança.

Desejo a toda sensacional equipe do " SEMPRE JOVENS" uma excelente Páscoa cheia de perspectivas de um recomeço cada vez melhor. Bjos meus

Ana Martins disse...

Querida Ná,
este texto revela um grande amor ao próximo, erros todos cometemos, ma há aqueles que nunca esquecemos.

Amar o próximo incondicionalmente e fazê-lo sentir que esse amor é forte e verdadeiro, dá-nos saúde e alegria, acredita que quando vejo as notícias e olho em meu redor sinto uma melâncolia devastadora, este não é o mundo que eu queria para os meus filhos.
O desprendimento total de valores a que todos dos dias assistimos é assustador.

Hoje é Domingo de Páscoa e como católica que sou, abri a porta ao Senhor, devias ver o brilho nos olhos do Sérgio, a alegria por beijar a cruz, a forma como o padre o cumprimentou e o sorriso que ele retribuiu, é tão bom vermos o amor nos olhos dos nossos filhos!

Beijinhos,
Ana Martins

Luis disse...

Querida Ná,
Belo post em especial pela época que atravessamos. É verdade que deixar passar uma ocasião é perde-la e foi aqui o que se passou! Esta é uma lição de vida que devemos nunca esqecer!
Um beijinho muito amigo.

direitinho disse...

Bom dia
Vejo na tua história um pouco das nossas vidas.
Talvez amanhã....Depois....
A nossa doação aos outros nunca pode esperar. Deve ser em cada dia e em todas as horas.
Aquele sorriso que diz tanto e faz tanto. E uma boa palavra...? farão certamente momentos inesquecíveis.
Aqui podemos entender um ditado ou lenda que nos ensina a viver cada momento como um presente que Deus nos dá e nos pede para repartirmos.
História escrita pela mão da artista e mestra. Sabe cativar !

Fernanda disse...

Querida Ana, Kyria e meus muito queridos amigos,

Obrigada pelos vossos sempre muito apreciados comentários.

Esta é mais do que uma lição, é para mim, uma recordação grata (apesar da história ter um final triste, mas também ele didáctico ((não deixar para amanhã, nada)) do que foi a escola, como eu a vivi como aluna.

Por comparação com o texto anterior e todos os comentários, sabemos todos que a escola é tudo menos um sítio bom para se estar.

Beijinhos,