27/11/2009

Um Homem honrado, como poucos

Recebi agora por e-mail este artigo que se refere a um nenúfar no meio do pântano. É oportuno que esqueçamos apenas por uns minutos a Face Oculta e meditemos neste exemplo, do outro extremo, de decência, seriedade, honradez, sentido de Estado.

Seres decentes
Por Fernando Dacosta, na revista Tempo Livre, nº 82 de Outubro de 2008

Quando cumpria o seu segundo mandato, Ramalho Eanes viu ser-lhe apresentada pelo Governo uma lei especialmente congeminada contra si.

O texto impedia que o vencimento do Chefe do Estado fosse «acumulado com quaisquer pensões de reforma ou de sobrevivência» públicas que viesse a receber.

Sem hesitar, o visado promulgou-o, impedindo-se de auferir a aposentação de militar para a qual descontara durante toda a carreira.

O desconforto de tamanha injustiça levou-o, mais tarde, a entregar o caso aos tribunais que, há pouco, se pronunciaram a seu favor.

Como consequência, foram-lhe disponibilizadas as importâncias não pagas durante catorze anos, com retroactivos, num total de um milhão e trezentos mil euros.

Sem de novo hesitar, o beneficiado decidiu, porém, prescindir do benefício, que o não era pois tratava-se do cumprimento de direitos escamoteados - e não aceitou o dinheiro.

Num país dobrado à pedincha, ao suborno, à corrupção, ao embuste, à traficância, à ganância, Ramalho Eanes ergueu-se e, altivo, desferiu uma esplendorosa bofetada de luva branca no videirismo, no arranjismo que o imergem, nos imergem por todos os lados.

As pessoas de bem logo o olharam empolgadas: o seu gesto era-lhes uma luz de conforto, de ânimo em altura de extrema pungência cívica, de dolorosíssimo abandono social.

Antes dele só Natália Correia havia tido comportamento afim, quando se negou a subscrever um pedido de pensão por mérito intelectual que a secretaria da Cultura (sob a responsabilidade de Pedro Santana Lopes) acordara, ante a difícil situação económica da escritora, atribuir-lhe.
«Não, não peço. Se o Estado português entender que a mereço», justificar-se-ia, «agradeço-a e aceito-a. Mas pedi-la, não. Nunca!»

O silêncio caído sobre o gesto de Eanes (deveria, pelo seu simbolismo, ter aberto telejornais e primeiras páginas de periódicos) explica-se pela nossa recalcada má consciência que não suporta, de tão hipócrita, o espelho de semelhantes comportamentos.

"A política tem de ser feita respeitando uma moral, a moral da responsabilidade e, se possível, a moral da convicção", dirá. Torna-se indispensável "preservar alguns dos valores de outrora, das utopias de outrora".

Quem o conhece não se surpreende com a sua decisão, pois as questões da honra, da integridade, foram-lhe sempre inamovíveis. Por elas, solitário e inteiro, se empenha, se joga, se acrescenta - acrescentando os outros.

"Senti a marginalização e tentei viver", confidenciará, "fora dela. Reagi como tímido, liderando".

O acto do antigo Presidente («cujo carácter e probidade sobrelevam a calamidade moral que por aí se tornou comum», como escreveu numa das suas notáveis crónicas Baptista-Bastos) ganha repercussões salvíficas da nossa corrompida, pervertida ética.

Com a sua atitude, Eanes (que recusara já o bastão de Marechal) preservou um nível de dignidade decisivo para continuarmos a respeitar-nos, a acreditar-nos - condição imprescindível ao futuro dos que persistem em ser decentes.

4 comentários:

Luis disse...

Caro João,
Felizmente ainda há Homens como o Eanes, e ainda bem para que possamos rever Valores que se vão esquecendo neste lamaçal em que se transformou Portugal. A propósito ainda hoje li que alguém encontrou um envelope com mais de mil Euros e procurando o seu dono acabou por lhe devolver o dinheiro não querendo nada para si. E quanto se sabe não é pessoa abonada!Será com pessoas assim que poderemos reabilitar Portugal.
Um abraço amigo.

A. João Soares disse...

Caro Luís,

Felizmente não é o único exemplo de virtudes. Mas deviam ser mais. Devia ser a regra. Só que, no mundo materialista, economicista, egoísta em que hoje vivemos estas pessoas são consideradas «parvas», porque os espertos acumulam fortunas por qualquer processo, mesmo com batota, como á tempos disse uma jovem do PS.
Os exemplos como este deviam ser seguidos pelos políticos. Por exemplo Jaime Gama ao pretender reduzir as despesas da AR, moralizando os deputados é também uma atitude respeitável e a não esquecer. Mas na política os exemplos são opostos a isto: Casos Freport, Apito Dourado, Furacão, BPN, BCP, BPP, Aterro Sanitário da Cova da Beira, Portucale, Face Oculta, etc. são demonstração de que a honradez foi substituída pelo apego doentio e criminoso ao vil metal.

Abraço
João

Fernanda disse...

Querido amigo João,

É verdade que no meio do lamaçal desta corrupção em que nos encontramos, há excepções, felizmente.
Mas como diz o meu amigo João, esta devia ser a regra e não a excepção.

É contudo louvável, que vá servindo de exemplo vivo a seguir.

Beijinhos

A. João Soares disse...

Querida Amiga Ná,

Concordo consigo. Devia ser um exemplo vivo a seguir.
Porém, as mentalidades dos políticos actuais são opostas a estas virtudes. São capazes de dizer que ele é parvo e que o Vara, o Oliveira e Costa o Dias Loureiro e muitos outros é que estão certos porque granjeiam fortunas colossais em pouco tempo. Mais rápidos do que a Rosa Mota e o Carlos Lopes!!!

Os valores éticos são indispensáveis mas eles procuram ignorar esta verdade.
Mas tudo tem um fim e o destes não pode demorar muito.

Beijos
João