08/11/2009

As meninas guias e não só....

Há mais de trinta anos atrás, trabalhei nas Caves do Vinho do Porto, em Gaia.
Nessa altura, para além do número de meninas que no pico da época turística atingia uma dezena, todas elas normalmente estudantes universitárias que juntavam o útil ao agradável, praticando as línguas que estavam a aprender e ao mesmo tempo aproveitavam para amealhar uns cobres para o novo ano lectivo, havia ainda o outro grupo, ao qual eram exigidos muito menos conhecimentos linguísticos, mas sim outros predicados, que aliás também eram bem-vindos em qualquer caso.

Bem, o facto é que todas teríamos que ter, para além do exigido conforme as funções, simpatia, boa apresentação, à vontade, muita presença de espírito e saber estar e falar fosse com quem fosse.
Contudo, acontecia muitas vezes que as meninas mais bonitas estavam do lado das que serviam. Fácil de perceber porquê, as guias eram sujeitas a um teste bem mais rigoroso e nem sempre era fácil conciliar beleza com as qualidades exigidas.

Por ser a guia efectiva da Empresa cerca de catorze anos, conheci muitos grupos, algumas das meninas repetiam-se um ou mesmo mais anos, mas depois seguiam as suas carreiras profissionais. Tenho desses tempos as melhores lembranças da minha vida, até porque amava o que fazia e trabalhei com pessoas fabulosas.

Houve um ano, em que uma das serventes era linda, um espanto. Ruiva, de olhos claros, corpo escultural, ela tinha todos os predicados, todos. Mas a coitada da jovem tinha tanto de bela como de” inocente”, isto para ser delicada.
Apercebi-me rapidamente que alguns dos seus dotes, neste caso seriam dispensáveis, uma vez que ela não sabia agir, sendo o seu comportamento quase sempre inadequado perante as situações que tinha que enfrentar. Mas lá foi ficando… e com algumas chamadas de atenção houve algumas melhorias, embora poucas.
Ela ria de piropos indecorosos, ou vinha contar observações que lhe tinham sido feitas com um ar de satisfação, de orgulho, quando o caso não seria de todo para actuar daquela forma
Toda a equipa tinha um só chefe, um homem. Mas este passava o seu tempo metido no gabinete dele, vindo no máximo, uma ou duas vezes por dias ver como corriam as coisas, e claro, espreitar as meninas, assim como se fosse o seu harém.
Para além das visitas regulares do chefe, haviam as do médico da Empresa que não saía sem ir ver as meninas mais de perto, especialmente a ruivinha.
Naturalmente que ele tinha, de vez em quando, uma ou mais meninas no seu gabinete para consultas, e lembro-me perfeitamente de ele ser sempre atrevido, mesmo que não o fosse comigo, eu acabaria sempre por saber, conversas de mulheres…

Um belo dia a dita colega ruiva faltou. Ao indagar fiquei a saber que tinha ido fazer um raio X à garganta porque o Sr.Doutor a aconselhara, suspeitando que ela poderia ter problemas de tiróide. Convém aqui salientar que o médico da Companhia tinha uma Clínica de radiologia.
Perto da hora de almoço lá chegou a menina, tão alvoroçada que passou por mim e nem me deu os bons dias. Foi directamente à copa, onde se encontravam as serventes a tratar dos copos e aperitivos para as provas aos turistas, e uma vez lá começou a fazer perguntas a uma das suas colegas.
Curiosa pela sua atitude anterior fui atrás dela e ouvia-a gora com mais clareza. O que ela perguntava era se a outra amiga também tinha ido fazer o mesmo exame, a resposta foi positiva. À segunda pergunta ninguém se conteve e desatou a rir, mesmo na cara da pobre inocente.
“Diz-me lá! A ti o Sr. Doutor mandou-te tirar o soutien?”
Moral da história: não há moralidade e a ingenuidade tem limites.
Fernanda Ferreira

6 comentários:

Luis disse...

Querida NÁ,
Desculpe-me a pergunta ela era ruiva ou loura? ahahahaha.
Quanto à sua descrição achei-a muito engraçada e eram outros tempos. Até a brejeirice era menos agressiva... ou não?
Um beijinho amigo.

A. João Soares disse...

Amiga Ná,

Uma descrição de antologia, muito interessante com a arte que lhe conhecemos.
Hoje fala-se da necessidade de educação sexual nas escolas, mas penso que o indispensável é a educação cívica que prepare as crianças para enfrentarem a vida com todas as suas armadilhas e que não se compadece com ingenuidades. Saber viver e conviver é muito mais complexo do que os pormenores do acto sexual que agora pretendem ensinar a crianças mal preparadas para a vida.

Beijos
João

Fernanda disse...

Querido amigo Luís,

A menina era mesmo ruiva... mas tivemos lá numa altura uma guia morena que fazia babar até os patrões...mas também só era linda de morrer ahahahah!

A verdade meu amigo, é que a brejeirice é sempre brejeirice, e mesmo naquele tempo também chocava. As raparigas, naturalmente menos preparadas só coravam ou então ousavam, raramente, e isto se conseguissem, dar com a bolsa de mão no imbecil...mas eram outros tempos sim, sem dúvida.

Beijinhos

Fernanda disse...

Querido amigo João,

Muito obrigada pelo seu comentário elogioso que muito me honra.
Este texto foi traduzido ontem à noite de um post meu, muito antigo, publicado no meu Blogue D.T.& Stories.
Ainda bem que gostou.
A foto é mesmo de um dos grupos de guias, onde eu naturalmente também estou presente.

Mais uma vez estamos totalmente de acordo.
Os nossos adolescentes estão a ser, quase todos (haverá excepções raras), mal educados sexualmente. Educação sexual tem que passar por preparação civíca e moral. O acto sexual em si e a prevenção da gravidez deve ser muito cautelosamente abordado, porque pode funcionar ao contrário, estimulando-os.
Muitos pensam que se o assunto é assim abertamente falado e se tomaram as devidas precauções podem e devem experimentar.
Agora todos os miúdos das escolas primárias namorar e os adolescentes de 12/13/14 anos "curtem"...daí a contínua elevadíssima taxa de meninas grávidas nessas idades no noso país, a segunda mais alta da Europa.

Assunto que dava pano para mangas.

Beijinhos,

Pedro Ferreira disse...

Olá Mãe,

Sabes que me lembro dessa história??? acho que lembro até da jovem em questão...tu comentavas cada coisa que ela fazia e dizia.

Como me levavas contigo sempre aos sábados de manhã para o emprego conheci muitas das tuas colegas, e apesar de ser um muído na altura não penses que era cego :))))
Sei que era a Sãozinha, não era??? e a morena linda de que falas era aquela da Foz, não me lembro o nome dela...belos tempos que eu ganhava gorjetas por dizer "mind your step, please".
Aprendi quase todo o meu Inglês contigo, afinal tudo...

Beijos muitos, cheios de carinho,
P.Ferreira

Fernanda disse...

Pedro, olá filho!

É verdade, eu omiti nomes de propósito, já basta estar a foto inconfundível no painel de azulejos ao fundo, na foto.

Era uma alegria para ti quando estavas comigo e eu sempre soube que reparavas mas meninas que tanto te mimavam. Beijinhos daqui e dali, uma festa.
Mais essa dos turistas, é verdade, foi assim que aprendeste muito, eles adoravam o meu menino ruivinho e tão polido.

Beijos e abraços,
Mãe