23/11/2009

Monção, terra de Deu-la-Deu Martins.

Terra de Deu-La-Deu, das termas e do "Alvarinho", ganhou justa fama desde o séc. XVI, altura em que os ingleses, pelo porto de Viana, importavam vinho "tinto" de Monção, a que chamavam "Eager Wine", juntamente com panos de linho, mel, cera e cordagens. No regresso, as naus traziam bacalhau.

Mas Monção é, também, a terra da "Coca". A luta do bem sobre o mal, da verdade sobre a mentira do Arcanjo S. Miguel sobre o Dragão, são significados religiosos, infelizmente desaparecidos no Alto Minho. A "coca" monçanense está intimamente ligada à procissão de "Corpus Christi" e à conhecida lenda de S. Jorge.

S. Jorge, acudindo ao apelo angustiado de uma jovem princesa do rei da Líbia, mata com a sua lança o dragão que a queria devorar. Esta, impressionada pela heroicidade do Santo, converteu-se ao Cristianismo. Em harmonia com a tradição da "Coca" simbolizando o dragão, a que o povo tanto chama a "Santa Coca".

A história de Deu-la-Deu Martins, a mulher do capitão-mor de Monção, Vasco Gomes Abreu, e dos actos de bravura que fizeram dela a heroína e o símbolo desta vila nortenha.

Estava-se em guerra. Vasco Gomes de Abreu ausentara-se em serviço do Rei de Portugal e o adiantado de Galiza, D. Pedro Rodrigues Sarmento, general de Henrique Castela, decidiu aproveitar a ocasião e pôr cerco a Monção com um poderoso exercito. A vila aguentou o cerco apesar da falta de recursos de todo o género. Os alimentos eram escassos, os homens válidos muito poucos. Deu-la-Deu tomou o comando da praça e, durante todo o tempo que durou o cerco, dirigiu os seus homens, lutou a seu lado nos momentos de maior perigo, encorajou os vacilantes desesperados, assistiu os feridos, fechou os olhos espantados de céu e dor dos mortos. desmultiplicou-se, sem um momento de desânimo, sem uma vacilação.

Porém, dentro da murulha, esgotava-se tudo, lentamente: os recursos militares, a comida, os próprios homens e a coragem também. O desespero descia sobre espíritos e corpos massacrados por dias e dias de expectativa num lance decisivo.

E foi num desses momentos de desespero que, lúcida, Deu-la-Deu mandou recolher a pouca farinha que ainda existia na vila e com ele fazer alguns pães. os olhos famintos e desorbitados dos habitantes chisparam de ténue mas selvagem alegria. O pão, o último naco! Depois a morte, mas que interessa isso se ela nos espera na mesma e nós estamos fartos de a esperar! Mas...
Prontos os pães, Deu-la-Deu subiu à muralha com eles na mão. Chegou-se a uma ameia e jogou-os aos sitiantes, ante o espanto dos seus conterrâneas, sem forças para mais do que pasmo, gritando bem alto:

"A vós, que não podendo conquistar-nos pela força das armas, nos haveis querido render pela fome, nós, mais humanos e porque, graças a Deus, nos achamos bem providos, vendo que não estais fartos, vos enviamos esse socorro e vos daremos mais, se o pedirdes!"

Na verdade, também o inimigo tinha fome, muita. Por isso face àquele esbanjamento de pão, acreditaram na fartura dos sitiados e levantaram cerco, partindo para terra de Espanha.
Foto de José Ferreira
MaisNa Cada do Rau
Fernanda Fereira

6 comentários:

J.Ferreira disse...

Muito mais há para dizer sobre Monção, mas entendo que mesmo assim o texto tenha ficado extenso.
Seguramente nada monótono,pelo contrário, opinião suspeita por ser quem sou, mas absolutamente verdadeira.

Parabéns, deste bom uso às mimhas fotos.
Beijo
J.Ferreira

A. João Soares disse...

Querida Amiga Ná,

Esta história do pão oferecido aos sitiantes famintos é conhecida e mostra bem o poder do bluf nas guerras. A camuflagem, as simulações de força, as manobras secundárias para iludirem quanto ao ataque principal, e recentemente a propaganda as informações falsas ou contra-informação são fundamentais para uma vitória mais rápida e com menos baixas.
Já no século XIV havia mulheres geniais em Portugal !!!
Parabéns ao José pelas fotografias de muito boa qualidade

Beijos
João

A. João Soares disse...

Amigo José,

Ousei roubar-lhe as fotografias da Casa do Rau para o Só imagens. Claro que identifico o autor, como mandam as boas maneiras!!!
Não lhe disse antes, porque estava a fazer uma experiência sobre a forma mais fácil de transferir imagens de um blog para outro, sem ter esperança de conseguir. Mas deu resultado, pelo que não as retirei e é mais uma montra para as mostrar ao mundo.
Parabéns estão óptimas.

Um abraço
A. João Soares

Fernanda disse...

Tudo o mais a dizer sobre Monção, sobre as suas feiras das tasquinhas, sobre o Alvarinho, o seu famoso fumeiro, as obras de enriquecimento da terra, etc, ficarão para uma outra ocasião.

Voltaremos a Monção, sem dúvida e haverá muito mais fotos desta vila linda, para deslumbrar quem conhece mal ou não conhece de todo.

Bejo

Fernanda disse...

Querido João,

Assim é, de facto!

É uma das armas mais subtis que se podem e devem usar para poupar vidas humanas.
As mulheres portuguesas são todas geniais, sobretudo as daqui do norte, dizem que têm "pelo na benta"...que imagem horrível, mas é uma forma popular muito usada por estes lados, que como sabe significa que têm uma força, determinação e bravura, igual à dos homens.

Beijos e obrigada pela visita,

J.Ferreira disse...

Amigo João Soares,

Não precisa agradecer sobre as fotos.
Realmente Monção é muito mais do que se vê nas fotos.
Tem entre outras a particularidade de ter "doentes" a tratar-se com água nas termas e no restaurante com alvarinho.
Qual botox ou plásticas?
Um abraço.