10/12/2009

O primeiro Natal de Irina em Portugal.

Não resisti…
Desculpem-me por ser uma transcrição total, mas eu não podia deixar de dividir convosco esta comovente história que tem tudo a ver com o que deve ser o verdadeiro espírito de Natal.
Para além disso, aprendamos o significado de xenofobia, o mal que podemos fazer aos outros irmãos...
Peço-vos que não se deixem desmotivar pela extensão do texto, vale a pena lê-lo até ao fim, verão que sim...

O Primeiro Natal em Portugal
É véspera de Natal. Mas não para Irina. Para ela só será Natal a 7 de Janeiro, quando as aulas tiverem recomeçado.
A mãe aproveita umas horas extra, na pastelaria, para preparar fornadas de bolos-reis.
O pai, antes de sair, marcou-lhe páginas e páginas de trabalhos de casa. E preciso, para poder acompanhar os colegas.
Folheando o dicionário, a pequena ucraniana procura as palavras portuguesas que há-de escrever em frente das que tão bem conhece.
Tudo diferente! Até o abecedário... Na escola, os outros fazem pouco dela e chamam-lhe "língua de trapos". Que quererá isso dizer?
Vai à página 190, logo em seguida à 293. Era de calcular...
Tem, no entanto, orgulho em ser a melhor a matemática. Ninguém a bate em contas. Quando a professora entrega os testes e lhe dá vinte, há sempre um grupinho irritado que, no recreio seguinte, se junta, numa roda, à sua volta, cantarolando:


Irina,Irina,Irina
Que menina tão fina!
Tem cara cor de sal,
Olhos cor de piscina,
Cabelos cor de margarina.
Ai, doem-te as saudades?
Vai tomar aspirina.


Na Ucrânia deixou tantos amigos...
Evita aqueles olhos escuros que se fixam nela, uns curiosos, outros trocistas, outros indiferentes.
Sente-se como uma extraterrestre. Porque é que os pais a mandaram vir? Isola-se no recreio, a um canto, tentando desvendar a algaraviada das conversas. Às vezes, o Afonso murmura-lhe ao ouvido um segredo:
- Pareces uma fada!
E foge logo a correr.


Que palavrão será "fada"? Nem vale a pena procurar no dicionário. Algumas palavras que lhe dizem nem sequer lá vêm. A princípio ainda perguntou à mulher da limpeza o que significavam mas ela empurrou-a com a esfregona.
- Ordinária! Estes imigrantes mal sabem falar mas fixam logo a porcaria... Porque não voltam para o sítio de onde vieram?
Com lágrimas nos olhos, Irina vai agora à janela e vê as luzinhas acender e apagar nas árvores despidas. Por trás das paredes deslavadas das velhas casas, decerto se celebra a consoada. Como será?
Doze pratos se punham na mesa de festa no Natal da sua terra. Uma em memória de cada apóstolo.
É Natal em Portugal. Que interessa? A família está dispersa. A mãe a fazer bolos-reis que não vai provar porque para os ortodoxos é tempo de sacrifício e jejum. O pai lá anda, na construção civil. Como mais ninguém queria trabalhar na noite de 24, foi, sozinho, pintar um café que está a ser remodelado, ao fundo da rua. Os dois irmãos mais novos ficaram em Priluki, lá longe, com a avó.
Irina aquece a sopa e arranja uma sandes de queijo.
Como pesa o silêncio!


De repente, sente um grito abafado no andar de cima.
Algum assalto? Alguém que caiu? Não sentiu passos nem baque de uma queda...
Com o coração a bater, põe-se a espreitar pelo óculo. Nada!
- Acudam! Acudam!
Mais ninguém se encontra no prédio. As lojas do rés-do-chão estão fechadas, os vizinhos do primeiro andar foram de férias. Por cima, na mansarda, mora uma rapariga nova, gorda, pálida.
Irina abalança-se a subir. A porta encontra-se apenas encostada e a miúda entra, a medo. Já ninguém grita. Um gemido fraco ecoa ao fundo do corredor.
Haverá feridos? Tem horror ao sangue. Por um momento, pensa em voltar ara trás. Mas prossegue, pé ante pé, até ao quarto.
Deitada na cama, a moça, que ela conhece de vista, geme, agarrada à barriga enorme. Irina aproxima-se, repara que está alagada em suor.
- Ladrão atacar tu? Estar doente?
Tremendo, a outra responde:
- Chama o 112. O bebé vai nascer.
Que será o 112? Estará ela a delirar? Quase desfalece.
Então Irina precipita-se pela escada abaixo. A rua encontra-se deserta. Não conhece ninguém nas redondezas. Corre até ao café onde o pai está a pintar paredes.
- Pai, pai! - grita ela.
Anton desce do escadote, pousa o rolo, inquieto ao ver a filha naquela aflição.
- Que foi? Aconteceu alguma desgraça?
Mal sabe o que se passa, marca um número no telemóvel, dá a morada, pede urgência. Segue-a em passo apressado. Sobre eles desaba uma chuva gelada. Ficam com os cabelos a escorrer, encharcam os sapatos nas poças que, num instante, se formam.
Chegados ao prédio, o ucraniano galga os degraus dois a dois, entra sozinho no quarto da vizinha. A filha fica à espera.
- Irina, ferve uma panela de água. Traz-me um frasco de álcool, uma tesoura, toalhas.
A miúda obedece, confusa.
- Traz-me roupa lavada, para me mudar!
O pintor despe o fato-macaco, sujo de tinta e de pó, na casa de banho, enfia uma camisa branca, umas
calças desbotadas. Esfrega as mãos e a tesoura com álcool.
- Irina, a água já ferve?
De novo no quarto, fala pausadamente com a rapariga, em voz alta. Ouve-se tudo cá fora.
- Força! Coragem! Está quase...
De súbito ouve-se o choro de um bebé.
- Entra, Irina - diz, pouco depois, o pai.
- Vem ajudar. Já és crescida. Entrega-lhe o recém-nascido.
A rapariga, na cama desalinhada, sorri.
- Embrulha-o num xailinho. Está na gaveta do meio.
Irina aconchega aquele corpo tão pequenino e frágil. Embala-o devagarinho, como fazia com as bonecas. Uma minúscula mãozinha aperta então o seu polegar.
O alarme de uma ambulância apita. Pára à entrada do edifício. Duas enfermeiras precipitam-se pela porta dentro.
- Então, viram-se atrapalhados? Um parto faz sempre confusão, principalmente aos homens.
- Sou médico - confessa o ucraniano. - Mas, em Portugal, ando nas obras...
As enfermeiras cruzam um olhar subitamente triste. Examinam a criança.
- O bebé nasceu no dia de Natal. É o nosso Menino Jesus.
A mãe olha para o homem e pergunta:
- Como é que o doutor se chama?
- Anton.
- António? Quer ser o padrinho? Vou pôr-lhe o seu nome.
As enfermeiras levam a rapariga e o bebé para a ambulância.
- Vão dar um passeio até à maternidade. Estão ambos óptimos.
- Manhã nós visitar! - Exclama a garota.
Apontamento promovido pela Biblioteca Escolar da EB3 Álvaro Velho.
Autor: Luísa Ducla Soares
Painting by Susan Sinyai
Fernanda Ferreira

20 comentários:

A. João Soares disse...

Querida Amiga Ná,

Um lindo texto que se insere muito bem no espírito de Natal. A generosidade da menina que fez bem, socorreu quem precisava de ajuda, mesmo sendo da nacionalidade daqueles que dela troçam.
Outro pormenor o médico que não se importa de trabalhar nas obras para sustentar a família. Os portugueses, pelo contrário, abrigam-se à sombra de títulos, por vezes imerecidos, e recusam trabalhar para exigir subsídios.
Realmente somos uma raça em decadência.

Beijos
João

Fernanda disse...

Querido amigo João,

Obrigada pela paciência de ter lido até ao fim.
Esta é uma história baseada em factos reais, o que não nos estranha nada...infelizmente!!!

Porque para mim o Natal é exactamente isto. São as boas acções que se praticam todos os dias, e ainda como referiu por uma criança que era espezinhada na escola só porque era diferente, para não falar no pai que mesmo sendo médico, trabalhava nas obras para sustentar a sua família sem preconceitos.
Aqui qualquer pretenso intelectual já não pode humilhar-se e sujar as mãos num trabalho digno e honesto qualquer.
Eu adorei, por isso não resisti.

Beijinhos

Irene Moreira disse...

Ná que bela história , que lição de vida. Beijos

Fernanda disse...

Querida Irene,

Obrigada amiga. Concordo consigo.
Beijos

Celle disse...

Querida, maninha!

A humildade a fraternidade a solidariedade presentes no seu post,nos levam a refletir sobre a necessidade de resgatar tais virtudes, que perdem força nos dias de hoje.
Um abraço saudoso e mil beijinhos...
Celle

Luis disse...

Caríssimos Amigos,
Adorei este post pelo espírito em que está embuido! É longo mas não é cansativo pois ele só assim pode revelar bem as caracteristicas do que é ser emigrante! E a propósito não estou de acordo com o João quando diz que somos um povo decadente e, porquê penso assim? É que o Português quando emigra procede exatamente como este ucraniano - agarra qualquer trabalho para poder sobreviver e mais chama sempre que pode a família para junto de si como aqui se viu nesta estória! O que está a acontecer aqui em Portugal é que com a nossa entrada na UE julgámo-nos ricos e quizemos deixar de trabalhar passámos a querer que o emigrante trabalhe e nós pensámos que poderíamos ficar sentados à "sombra da bananeira"! A santa ignorância impera até quando? Já começam os emigrantes evoluidos a ocupar lugares de maior responsabilidade dentro do nosso País (a deixarem de ser "trolhas" para serem médicos nos nossos Hospitais, a serem enfermeiros, técnicos de informática, etc., etc.) e dessa forma o Português calão e ignorante passará a ser dominado por esses emigrantes.
Temo que eles sejam uma nova forma de invasão diferente das havidas em tempos remotos mas que resulte em novos costumes e numa nova identidade nacional! Sempre fomos uma amálgama de raças e pelos vistos continuaremos a ser...
Um abraço amigo.

Ana Martins disse...

Querida amiga,
um texto de amor e ajuda ao próximo, quiçá uma história verdadeira digna de ser divulgada.

Beijinhos,
Ana Martins

walkyria.gianna disse...

Sem palavras Fernanda, texto sensível como você. Existe muito "gente" na Terra para nos trazer esperanças de um tempo bem melhor que ainda há de vir. Bjs

A. João Soares disse...

Cara Celle e Luís,

Não sou um comentador assíduo por falta de tempo e já aqui comentei. Mas volto com três ojectivos:
- Felicitar a nossa amiga e coadministradora Ná, com quem contactei ontem sobre o caso, por ter conseguido suprir em pouco tempo a avaria no sonoro. Parabéns pela sua sabedoria e pela dedicação ao blogue.
- À amiga Celle quero voltar a dizer que «resgatar tais virtudes, que perdem força nos dias de hoje», como muito bem refere é o objectivo principal do nosso blogue e foi para isso que a Celle foi convidada a colaborar, por lhe terem sido reconhecidas qualidades e capacidades para lutar por essa tão nobre finalidade.
- E a ti Luís quero dar um puxão de orelhas com espírito natalício por me obrigares a descobrir uma contradição no teu comentário.Dizes «não estou de acordo com o João quando diz que somos um povo decadente»
mas acabas por dizer «dessa forma o Português calão e ignorante passará a ser dominado por esses emigrantes.
Realmente, o que domina a maioria de nós é sermos ignorantes, indisciplinados preguiçosos, parasitas de subsídios e esmolas, apáticos, com fé em milagres que superem a sua apatia e indiferença e lhes tragam a sopa a casa. Quando emigram, deixam de estar integrados na sociedade portuguesa e têm de superar os vícios nacionais, e tornam-se disciplinados à organização da estrutura em que se inserem (hã excepções daqueles que continuam com os mesmos defeitos e vão apenas para mendigar e...
É vulgar ver portugueses na rua a reparar uma fuga de água, todos na conversa e apenas um a mexer a picareta, no entanto um deles é chefe da equipa mas não impõe disciplina no trabalho e receia chefiar, ou não sabe ser chefe. É a velha ambição da igualdade no pior sentido.
Felizmente, estão a surgir excepções e tenho a vaidade de ter aqui dado publicidade a vários casos de excepção de excelência. Gostava que houvesse muitos mais casos.

Abraços muito amigos, principalmente para o Luís, companheiro desde 1952, a quem ia rasgando o blusão em 1957, para lhe salvar a vida, na placa dos 900 metros da CT em Mafra.
João

Fernanda disse...

Querida maninha Celle,

Onde tem andado???tão distante!!! Estava a morrer de saudades suas.
Estive no seu Blogue, mandei e-mails e nada.
Espero que esteja tudo bem consigo.

Temos mesmo que tentar resgatar todos os bons valores que se estão a perder, a todo o custo.

Beijos mil com muita ternura,

Luis disse...

Caríssimo João,
Lembraste-me dum facto já muito esquecido... Obrigado por me teres salvo a vida!
Quanto a estarmos a ficar decadentes isso talvez seja por termos os dirigentes que temos e não pelo povo em si! Pois como bem dizes quando emigra e se sujeita ás novas regras ele se torna num bom elemento na sociedade.
Um abraço amigo.

Fernanda disse...

Querido amigo Luís,

Fico muito contente que tenha gostado e que não tenha adormecido durante a leitura :))))

Meu grande amigo, o meu filho também é emigrante e não teve pejo nenhum tanto lá como cá, em trabalhar para ganhar a vida.
Aqui trabalhou até como empregado de um posto de gasolina, e na Suíça começou por descascar batatas, mas chegou a cozinheiro e agora é experimentador de carros da Honda e Relações Públicas pelas línguas que fala e a simpatia que irradia.

A verdade é que os trabalhadores portuguêses que emigram são estimulados com vencimentos muitíssimo superiores e outras regalias sociais e por isso trabalha com gosto.
Se o mesmo fosse feito cá teríamos os nossos filhos na nossa Pátria.

Quanto aos imigrantes em Portugal, médicos etc, são discriminados sim e pagos salários vergonhosos (quando são). Para eles a miséria que ganham é uma fortuna em termos comparativos com os países de onde vêm, mas eles vão às escolas aprender a língua, o que fazem rapidamente, são super dotados para a aprenderem e vão-se integrando...muito lentamente, mas vão.

Este é um assunto que daria horas para conversar, mas no essencial, há xenofobia sim em Portugal e são as crianças que mais sofrem.

Beijinhos

Fernanda disse...

Querida Ana,

Pelo que li, esta é efectivamente uma história baseada em factos reais.
Sem dúvida que é uma história de amor ao próximo, e por um povo que não trata muito bem os imigrantes.

Beijinhos

Fernanda disse...

Amiga Kyria,

Obrigada pelas palavras elogiosas. Tenha presente que eu só publiquei um texto que não é meu, para chamar a atenção do que se passa no coração de uma criança e de uma família imigrante, do bem que podem fazer por quem os nem sempre os trata como merecem.

Beijinhos

Fernanda disse...

Querido João,

Só hoje consegui por outra forma, como deve ter percebido já, resolver o probelma provisoriamente.

Julgo ser um problema da própria empresa, não gosto deste modelo que ocupa muito espaço.
Fica assim até passarem as festas, depois veremos.

Muito obrigada pelos elogios, mas há muita gente entre nós que sabe bem mais do que eu, aliás eu estou cá para aprender e muito.
Dedicada...sim sou, muito, a tudo e a todos.

Beijinhos

MARA disse...

Querida Ná,

Muito comovente, mas li até ao fim.

Beijos
Milai

Fernanda disse...

Minha querida amiga Milai,

Parabéns! Leste até ao fim, wow!!!

Eu sei que é muito envolvente e que é fácil de ler, por isso me atrevi...mas mesmo assim pedi a opinião do amigo João antes de publicar.

Obrigada amiga por teres vindo até à tua casa.
Temos saudades, digo no plural, porque sei que todos o sentem igualmente.

Vá lá surpreende-nos.
Beijinhos bella,

MARA disse...

Querida Ná,

Então não tens dado pela minha presença? É porque ando com pantufinhos de lã para não fazer barulho os quais podes ver em Mara's Shop.

Beijos
Milai

J.Ferreira disse...

Bem, agora entendo melhor porque não sais do teu escritório quando estás em casa.

Ou escreves ou procuras textos lindos e verídicos, como este.

Parabéns, é uma lição para muitos de nós e dá mais uma vez uma outra perspectiva do que deveria ser o Natal.

Beijo
J-Ferreira

Fernanda disse...

Agora já sabes, aliás sempre soubeste:))))

Obrigada pelos "piropos". Adorei!

Beijos