21/12/2009

As Lapinhas de Natal


Há duas alturas em que necessito escrever. Uma é quando estou muito alegre, em jeito de quem está apaixonado. A outra é quando estou triste.

Tinha eu cerca de seis anos, vivia com os meus pais em Melgaço.

Era a época de pascoela. Uma dia, muito cedo de manhã, estava muito frio, fomos todos rapidamente a correr para a carrinha Volkswagen do Sr. Manuel Esteves e fizemos uma viagem muito demorada. Sei que não me sentia muito bem e vim quase sempre a dormir.

Quando saímos da carrinha estávamos na Trofa em casa dos meus avós. Não sabia porquê.

Entramos em casa onde estava muita gente e quando passamos pelo quarto dos meus avós que era logo à esquerda no corredor de entrada, consegui ver que o meu avô estava deitado na cama.

Sem perceber o que fazia toda aquela gente ali, os meus pais levaram-me logo para o quarto onde dormia a meu tio Raúl. Deitaram-me na cama e apareceu muita gente também ali no quarto.


Não sei quando, mas alguém de carro com o meu pai, levou-me a casa do médico, creio que na época era o único, na zona da Capela. Lembro-me perfeitamente que a consulta foi feita na entrada de casa no jardim e deitei a língua de fora. Eu tinha muito calor.

Quando chegamos a casa deitaram-me novamente na mesma cama, tudo escuro e toda a gente saiu.

Fiquei muito tempo às escuras e quase ninguém me vinha ver. Os meus pais traziam-me comida que eu não queria comer.

Mais tarde disseram-me que eu tinha o sarampo e a escarlatina. Parece que era sério e fatal em alguns casos.
Não sei quanto tempo ali fiquei, nem porque estávamos lá.
Mas nunca mais vi o meu avô.


Aquele com quem fui criado desde os meus dois anos até aos cinco e que um dia me recebeu quando o meu pai foi obrigado a levar-me de Regilde à Trofa, de noite e de motorizada porque eu não parava de chorar. A vida de circo dos farmacêuticos, nessa altura, fazia com que o meu pai não parasse de mudar de terra. (dizem, não me lembro disso).


Aquele que me aquecia na cama, pois eu dormia entre os dois avós.
Aquele que me levava muitas vezes de comboio até ao Sameiro e a Santa Luzia.
Aquele que me deu um dia um fato de marinheiro e mo vestiu numa viagem de comboio.
Aquele que me dava brinquedos no Natal.

O meu avô Lobo, era recoveiro. Fazia o serviço entre a Trofa e Porto e eu ia muitas vezes com ele.
Era uma pessoa muito importante. Se fosse hoje, diria que era o dono da TNT ou DHL. Lembro-me de muitas outras coisas boas dessa altura.

A casa onde vivi com os meus avós na Trofa tinha duas cozinhas. A “cozinha velha” era onde se passava mais tempo. Tinha uma lareira onde estava constantemente o lume a arder. Havia um daqueles potes de ferro de três pés, com água sempre a ferver. A sopa era também feita num desses potes e tinha sempre ossos, para dar o gosto e couves da horta. A minha avó Rosa fazia ali a “lavagem” que era parte da comida de um porco que ela tinha. Comprava o bicho pequenino, criava e depois vendia ao Sr. Manuel que era o merceeiro lá da terra. Às sextas-feiras havia matança.

O meu avô ralhava às vezes com a avó por causa desses bichos. O que é certo é que fui muitas vezes com ela à feira para comprar os leitõezinhos.

Na cozinha velha havia também uma daquelas máquinas que funcionavam a petróleo, tinha sempre em cima uma cafeteira com café, uma com chá e uma com leite.
Aquele café era trazido do Porto pelo meu avô, tinha um cheiro muito especial. Uns anos muito mais tarde, descobri que esse aroma era proveniente da “chicória”, que fazia parte do lote.
Na cozinha velha os bifes eram grelhados na lareira, em cima de um velho testo de panela. A carne era deliciosa.

“As Lapinhas de Natal” é o nome de um livro que me foi oferecido pelo bom aproveitamento escolar na escola “Gomes Teixeira” do Porto. Ainda não o li. Mas consta da minha biblioteca, um destes dias vou fazê-lo.

Hoje não consigo contar mais do que isto, continuarei depois…

Foto da minha avó materna Rosa. Realmente minha segunda mãe.
J. Ferreira

13 comentários:

Dulce disse...

Momentos que ficam para sempre, pessoas que, apesar de terem partido, permanecem em nossas vidas para sempre. Um relato doce, bonito, tal qual o doce sorriso de sua avó Rosa.

Quero desejar a você, José, e a Ná, minha muito querida amiga, um Natal de Luz, de Paz, Amor e muita Esperança.
Um abraço

Dulce

Dri Viaro disse...

Que seu Natal seja repleto das bençãos de Deus.
beijos

J.Ferreira disse...

Caros amigos/amigas,

Agradeço todos os votos de boas festas.
Há alturas no ano que estas memórias se evidenciam.
Eu tive a grata felicidade de ser criado na infância no seio de duas pessoas maravilhosas que "viviam" o Natal.
Nunca os vou esquecer.
Boas Festas para todos.

Agulheta disse...

Amigo José. Como é bom recordar as coisas de menino,é sinal que os sentimentos de família ficaram na memória de um dia!sabe eu tive a escarlatina? Hoje nem ouço falar disto.
Beijinho e tudo de bom
Feliz Natal desejo. Lisa

A. João Soares disse...

Caro José,

Belo texto, pelo seu conteúdo. Próprio do Natal em que se faz o balanço da actividade passada e se prepara o planeamento do novo ano. É bom recordar, mesmo a falta de curiosidade de ler «As Lapinhas de Natal»!

Mas, com ou sem lapinhas, tenha um Feliz Natal e entre no Novo Ano com o pé direito.

Abraço
João

Fernanda disse...

Olá!

Claro que já tinha lido o texto, aliás fui eu que o descobri no teu Blogue, e porque me emocionei ao lê-lo insisti para que fosse publicado aqui, mesmo inacabado.

Há aqui passagens da tua adolescência que não conhecia bem e que também são para mim, de alguma forma, uma revelação.

Sempre soube que estiveste sempre muito ligado aos teus avós maternos, e tive a honra de conhecer a senhora tua avó Rosa.
Tu foste para eles O "menino", e recebeste um amor e carinho raro, cada vez mais raro, que só a tua mãe Rosa Branca conseguiu dar ao Pedro, ao nosso "menino".
Assim é o Natal...

Estou ansiosa para saber o resto.

Beijo,

J.Ferreira disse...

Nais uma vez os meus agradecimentos a todos.
Eu acredito que este partilhar de emoções fazem realmente sentir o verdadeiro espírito de Natal. Mesmo que não quizesse, elas aparecem vivas na memória nesta época.
Com os votos de Bom Natal.

Celle disse...

Olá José!
Sou a irmã brasileira da Ná!
Também como você dei uma de saudosista e lembrando minha mãe, e as dificuldades enfrentadas para se casarem devido oposição da familia ao casamento! Mas deu certo!
Recebendo os carinhos e mimos da Fernanda e do Pedro?
Isto é muito bom!
Desejo à você e à sua familia um Feliz Natal! Desejo ainda, que abundantementes graças e bençãos cubram o lar de vocês...
Respeito e admiro muito sua familia, a Ná é especial!
Boas Festas!
Celle

Luis disse...

Amigo José,
O espírito de Natal é isto mesmo! Partilha-se o carinho e o amor por nós recebido com os nossos amigos para que eles se sintam bem, num ambiente quente a fazer esquecer os maus momentos porque passamos. O calor humano aqui espelhado retempera-nos do frio que por aí fora existe nos corações de muita gente! A verdade é que há poucos anos atrás ainda se vivia esta época com mais carinho e amor em ambiente familiar sem os consumismos de agora que nada nos dizem!
Um grande abraço com o desejo que o seu Clã tenha um Natal muito Feliz e que para o Ano Novo que se avizinha seja bem melhor que o actual, pois bem o merece.

MARA disse...

Amigo José Ferreira,

Um pedaço de vida que nunca mais esqueceu. Enquanto desabafa também lhe sabe bem lembrar esses tempos que lhe ficaram gravados e até criaram raízes que nunca mais secam.

Gostei de ler.

Tudo de bom para a Familia Ferreira.

BOM NATAL E BOM ANO.

Abraço da
Milai

Ana Martins disse...

Caro J.Ferreira,Memórias vivas e reais que nos fazem recuar no tempo dando brilho e cor a um sorriso de saudade.

Fico à espera da continuação!

Beijinhos e votos de um Santo Natal para si e toda a família,
Ana Martins

Pedro Ferreira disse...

Olá Pai,

Já tinha lido esta parte mas não comentei na altura.
Sabes como é, não há tempo para tudo.

Eu só me lembro da minha avó Rosa Branca, mas a tua também era muito bonita. A minha era muito vaidosa e linda. Também fui muito feliz com os meus avós paternos com quem vivemos alguns anos.

O teu texto é realmente emocionante, afinal é a tua história de vida à qual eu estou ligado. É como se estivéssemos a conversar, é assim que me sinto.
Continua, eu adorei.

Abraço cheio de ternura,
Pedro

J.Ferreira disse...

Pedro,

Os tempos foram outros, acredita que gostaria que todos tivesem a infância que eu tive. Afinal a tua avó era filha da minha. O tempo e o local fizaram a diferença.
Se fores ao Assim é... verás.
Beijão.