11/01/2010

Vale a pena esperar!!!


Havia numa bela estante de uma boa biblioteca um livro, mas que estava fechado. Tristemente fechado. Irremediavelmente fechado.
Nunca ninguém o abrira nem sequer para ler as primeiras linhas da primeira página das muitas que o livro tinha para oferecer.
Quem o comprara trouxera-o para casa, e provavelmente insensível ao que o livro valia, ao que o livro continha, enfiara-o numa prateleira, ao lado de muitos outros.
Ali estava. Ali ficou.

Um dia, não podendo mais o livro queixou-se 'Ninguém me leu. Ninguém me liga.'
Ao lado, um colega disse 'Desconfio que, nesta estante, haverá muitos outros como tu.'
'É o teu caso?' perguntou, ansiosamente, o livro que nunca tinha sido aberto. 'Por sinal, não', esclareceu o colega, um respeitável calhamaço.'Estou todo sublinhado. Fui lido e relido. Sou um livro de estudo.'
'Quem me dera essa sorte', disse o outro livro ao lado, a entrar na conversa. 'Por mim só me passaram os olhos. Página sim, página não… Mas, enfim, já prestei para alguma coisa."
'Eu também' disse, perto deles, um livrinho estreito. 'Durante muito tempo, servi de calço a uma mesa que tinha um pé mais curto.'
'Isso não é trabalho para livro' disse o calhamaço.'À falta de outro' conformou-se o livro estreitinho.
Escutando os seus companheiros de estante, o livro que nunca fora aberto sentiu uma secreta inveja. Ao menos, tinham para contar, ao passo que ele… Suspirou.

Não chegou ao fim do suspiro, porque duas mãos o foram buscar. As mãos pegaram nele e poisaram-no sobre uns joelhos.
'Tem bonecos esse livro?', perguntou a voz de uma menina, debruçada para o livro, ainda por abrir.
'Se tem! Muitos bonecos, muitas histórias que eu vou ler-te', disse uma voz mais grave, a quem pertenciam as mãos que escolheram o livro da estante.
Começou a folheá-lo, e enquanto lhe alisava as primeiras páginas, disse 'Este livro tem uma história, comprei-o no dia em que tu nasceste. Guardei-o para ti, até hoje. É um livro muito especial.'
'Lê' — pediu a voz da menina.
E o pai da menina leu. E o livro aberto deixou que o lessem, de ponta a ponta.

Foto Ná

Às vezes vale a pena esperar.
Fernanda Ferreira Ná

10 comentários:

Luis disse...

Querida NÁ,
Li, reli e adorei o seu post. Afinal o livro não estava esquecido estava era reservado para uma ocasião especial e ela acabou por se verificar. A sua sensibilidade está bem patente no texto. Engraçado que ultimamente tenho ando a reler livros que na primeira leitura por vezes nada me disseram e agoara mais velho e mais maduro me satisfazem bastante.
Quanto ao " Principezinho" é livro que adora e que releio com frequência e penso até que é um livro para adultos pelos conceitos que lá estão vinculados!
Um beijinho do coração.

José disse...

Olá amiga Fernanda,
Hoje passei aqui no blog, Sempre Jovens, e fiquei encantado com o seu seu texto sobre livros, que sempre me fascinaram, mas também tiveram fechados para mim durante muito tempo só agora ultimamento, é que o armário se tem ido abrindo aos poucos.

Deixo aqui o meu E-mail

josefilipe45@sapo.pt

Um beijinho,
José

Celle disse...

Maninha, espera demorada nunca é boa, mas, quase sempre vale a pena!
Ainda não fui...
Beijinhos
Celle

direitinho disse...

Fez um convite à leitura.
Como dizem:
Um livro é um amigo silêncioso.
Nenhum livro se esquecerá de quantos o leram e todos os que o leram jamais o esquecerão.

Fernanda disse...

Querido amigo Luís,

Esta história é verídica. Está já publicada na Casa do Rau, onde eu acho que o meu amigo também já comentou.
Lá em comentário, eu expliquei que foi o meu pai quem comprou um livro e guardou, pelo menos nove meses, do qual eu não me consigo lembrar do nome, mas que me lembro que tinha muitas imagens e que foi o primeiro livro que o meu pai me leu.
Devo muita coisa ao meu querido pai, uma delas é o gosto pela leitura.

Obrigada amigo!

Beijinhos

Fernanda disse...

Olá amigo José,

Ainda bem que veio conhecer esta Casa que adora visitantes novos.
Seja portanto muito bem vindo e volte sempre.

Já lhe escrevi um e-mail.

Meu amigo acho só acidentalmente não leu este meu texto no Rau, pode ter acontecido, mas como me visita regularmente ....

Eu também ainda tenho um«na calhamaços por ler e tenho um livro intragável, que já tentei ler várias vezes mas sem sucesso, do Lobo Antunes - As Naus.

Agora comprei um que estou morta por ler. mas ainda não arranjei tempo.
Um bom livro é um bom amigo! sempre!

Beijinhos,

Fernanda disse...

Amigo Luís Coelho,

Exactamente! Se eu lhe dissesse os livros que li e que adorei ler...como ainda os trato e releio, e relembro.


Se o testo serve como apelo à leitura, então valeu a pena publicá-lo.

Abraço

Fernanda disse...

Querida Celle,
Maninha!

Detesto esperar e fazer-me esperar ainda mais.
Aqui é diferente, foi por amor que o livro foi comprado com muita antecedência, e valeu a pena.

No sentido que lhe deu, e eu entendi, acho que sim, como se diz por cá "Quem espera sempre alcança"

Beijinhos

Ana Martins disse...

Querida Ná,
eu arriscarei mesmo a dizer que quase sempre vale a pena esperar, como diz o ditado,"QUEM ESPERA SEMPRE ALCANÇA!".

Gostei do texto e da mensagem que ele transmite, além disso a paciencia é uma virtude, saber esperar também!

Beijinhos,
Ana Martins

Fernanda disse...

Amiga Ana, querida!

Eu sou pouco de esperar ou de me fazer esperar, sou mais do tipo chego antes da hora para não fazer esperar e desespero se me fazem esperar, mas....dou-te razão.
Também não é menos verdadeiro o outro ditado "Quem espera desespera".

Neste caso concreto é diferente.

O mesmo se passa com alguns vinhos e outros produtos afins, quanto mais velhos melhores.

Até de algumas pessoas :)))

Beijinhos