20/06/2010

Rabu - Amor em Japonês

Os Japoneses são, por tradição e cultura, um povo contido no que respeita a exteriorização de emoções. Entre os samurais, havia um ditado que dizia que um guerreiro só devia permitir-se qualquer mostra de emoção uma vez em cada três anos. Nós, os Ocidentais, sobretudo os latinos, somos pródigos em manifestações de afecto. Beijos, abraços, palmadinhas nas costas e apertos de mão demorados, são um vocabulário gestual a anos luz de distância das conhecidas vénias Japonesas. Quando se tenta misturar os dois, a coisa nem sempre corre bem...


Nas ukiyo-e que exibiam o "mundo flutuante" de cortesãs e geishas, mesmo quando tomam uma forma explicitamente erótica (as shunga), raramente vemos o beijar retratado. De facto, parece que o toque sensual dos lábios, era uma das mais esotéricas técnicas nos manuais da geisha. Em 1930, quando houve uma proposta para que se exibisse em Tóquio a famosa estátua de Rodin - O Beijo - o facto desencadeou manifestações de protesto, e propostas para que se exibisse a escultura com as cabeças cobertas por um pano. Os corpos nús, não apresentavam qualquer problema. Era o beijo que não se enquadrava nas interacções humanas "normais". Por fim, o Rodin só foi mostrado depois da II Guerra Mundial, quando o primeiro beijo apareceu num filme Japonês.

E, se o beijo é uma manifestação do amor, em que ficamos quanto ao Cupido Japonês? Em 1915, T. H. Sanders, um ocidental em visita ao País do Sol Nascente, escreveu no seu livro "My Japanese Year": "O facto é que neste país, o Cupido passa um mau bocado, esta é uma terra desconhecida para ele. Olhares doces, dias de Primavera e noites de luar, deambulações junto ao mar, mão na mão, suspiros e confidências ternas, e todos os outros "ministros do amor", não têm lugar aqui."

Mas, nos finais do século XIX, os intelectuais Japoneses celebravam o conceito de rabu, a fonetização Japonesa da palavra love, uma vez que não dispunham dos sons "L" ou "V" (note-se que o R inicial não se pronuncia como em rato ou rolha, sendo antes um som entre o L e o R). A palavra tinha um brilho extra por conter uma emoção estrangeira algo exótica. O escritor Nagai Kafu, que passou toda a sua vida entre geishas e raparigas de bar (foto abaixo), e desceu ao túmulo com o nome duma geisha tatuado no corpo, escreveu que o momento mais transcendente da sua vida, aconteceu quando trocou algumas palavras com uma jovem Americana em Staten Island. Falaram de ópera, da irrelevância do casamento e da poesia do céu noturno, depois separaram-se com um suave aperto de mão. Love ou Rabu?

Em 1969, ainda podia ler-se, num dicionário de conversação Inglês-Japonês, sobre a palavra "love": "O casamento no Japão é geralmente arranjado pelos pais, e raramente o resultado dum amor mútuo. A língua Japonesa é, por isso, pobre em expressões de afecto (...)."


Referências: T.H.Sanders, My Japanese Year
John David Morley, Pictures From the Water Trade
Lesley Downer, Geisha - The Remarkable Truth Behind the Fiction

Por cortesia da amiga Margarida do Blog Banzai.


Na Casa do Rau

11 comentários:

lolipop disse...

Obrigada Ná! Mas eu sou Margarida!
Beijinho

A. João Soares disse...

Querida Amiga Ná

Gente prática, inovadora nas técnicas, produtiva, competitiva, como poderia perder tempo com tais pieguices?
Oh!!! eles nem sabem o que têm perdido!!! Têm que importar dos Indianos milhões de Kamasutras para ensinarem aos jovens o que a vida lhes pode dar e que os seus antepassados não aproveitaram.

Beijos
João

Luis disse...

Querida Amiga NÁ,
Por este post e outros que tenho lido ou visto tenho a ideia que "afecto" não existe por lá... Só têm sexo, como os animais, para procriarem, pois na realidade Amor não devem sentir.
Kamasutras é que não precisam pois até têm aulas de sexo em massa!
É pena que uma civilização tão avançada numas coisas neste aspecto seja tão fria e tão distante!
Um abraço amigo.

Fernanda disse...

Konnichiwa Amiga Margarida!

Não ligues, eu sei muito bem quem é quem, tu és a sweet Margarida!
Acho que bebi um copo a mais ao almoço :))))) e não foi saké.
Sumimasen!

Adoro estes contos japoneses e a cultura que os envolve.
Domo Arigato!

Fernanda disse...

Queridos amigos João e Luís,

Pergunto só isto, algum dos dois viu o filme Memórias de uma Geisha?

Eu vi! Adorei!
Cada povo tem a sua cultura, eu acho, sinceramente, que não se deve julgar nada nem ninguém de ânimo leve.

Beijinhos

Maria Luisa Adães disse...

Sem julgamentos, mas sempre me pareceu um povo misterioso e cruel.

Na 2ª. guerra mundial, mostraram toda a sua crueldade.

Bons em tecnologia,
muito fracos no amor.

Na realidade, não me são simpáticos
e não gosto deles.

Mas em compensação, gosto do seu dissertar.

Mª. Luísa

Maria Luisa Adães disse...

linda a equipa que vos acompanha.

Bela e simbólica a idéia.

Adorei vossa amizade.

Maria Luísa

Fernanda disse...

Amiga Luísa,

Misterioso será, mas isso é um dos atributos que mais me atrai no povo.
Tenho muita curiosidade em conhecer as culturas diferentes das do Ocidente, e pelo que tenho lido e visto em em filmes, como "O Último Samurai",por exemplo, tudo o que é do Oriente me fascina.

Cruel...
A crueldade foi vivida, é vivida em imensos países, o Japão não foi excessão, infelizmente.

A mim pessoalmente o que mais me incomoda agora, é o facto do japão ser o princioal poluidor mundial.
Eles e os E.U.

Obrigada pela visita e pelo comentário,
Beijinhos we boa semana.

Rogério Pereira disse...

Pelo que li aqui, se é que li bem, no Japão não há padarias mas... jáhápão!
(pelo menos eu acho que, por lá, por lá não faltam carcacitas e papo-secos...)

Ah, falta dizer uma coisa: dizem que os japoneses andam "enrabuados" oelo nosso fado. Será verdade? Se assim é, fica comprovada a nossa grande capacidade de eles se "enrabuarem" por nós...

(Ná, ficas proíbida de me levares a sério)

Beijos com os olhos em bico

Fernanda disse...

Querido amigo Rogério,

Se não te soubesse assim, ficaria a oensar que és um tremendo brincalhão, nada avinagrado, acutilante como sempre.

Seja bem vindo quem vem por bem e traz boa disposição ao Blog nos seus cometários.

Gostei imenso desse teu novo verbo "enrabuar", tu vê lá se não trocas as letras e sai asneira da grossa.

Com os olhos em bico também deve ser bom, aceito.
Beijinhos

A. João Soares disse...

A T E N Ç Ã O

O REPETIDO DESAPARECIMENTO DE IMAGENS NOS POSTS DESTA COLABORADORA DEVE-SE, PROVAVELMENTE, A UM «LAPSO» DELA.
Pedimos paciência aos amigos visitantes.

Cumprimentos
João