03/06/2010

Na terra dos pinguins

Passeava o Urso Branco a sua indolente figura pelos desertos gelados do Polo Sul, quando, espremendo os olhos cansados de tanto branco, divisou ao longe uma coisa de muitas cores, planta, flor ou bicho, de estranhar naqueles sítios. Foi-se aproximando e, à medida que se aproximava, ia contando as cores: ?Verde, azul, amarelo, vermelho, castanho... É um arco-íris concentrado e mexe. O que será?"
A tal coisa, quando o urso lhe chegou o focinho, apresentou-se:
- Sou um papagaio e ando em viagem. Que frio que está por aqui! Ainda não pensaram em aquecer este gelo todo?
O urso arregalou os olhos. O bicho, o passaroco, ou lá o que aquilo era, tinha ideias assustadoras. Para mudar a conversa perguntou-lhe:
- Donde veio Vossa Excelência?
Da Amazónia, no Brasil, uma maravilha de terra...
- Mas Vossa Excelência veio-se embora... - interrompeu, timidamente, o Urso.
- Por causa dos papagaios, amigo. Há lá papagaios a mais. Papagaios, araras, catatuas, periquitos... Muita concorrência, sabe! Além disso, gosto de viajar. Mas, irra, que já tenho os pés frios de estar sempre no mesmo sítio. Vamos dar uma voltinha?
Foram. O papagaio à frente, aos saltinhos, o urso atrás, pesadamente.
- Não há mais bichos nesta terra pasmada? - perguntou o papagaio.
- Há pinguins - informou o urso. - Milhares de pinguins.
- Apresente-me esses tais pinguins, que devem ser bacanas.
Muitos pinguins juntos fazem um bocado de impressão. Mas o papagaio não se impressionou. Quando eles o viram, rodearam-no, cheios de curiosidade.
- É um pinguim às cores - disse um dos pinguins.
Os outros repetiram:
- É um pinguim às cores.
O urso ia explicar que se tinham enganado, mas o papagaio abafou-lhe as palavras, com um discurso improvisado:
- Sim, amigos, sou dos vossos. Vim procurar a vossa companhia para vos explicar as cores e para vos ensinar a comportarem-se como pinguins do nosso tempo. Muito têm a aprender comigo. Para começar, vou ensinar-vos a voar.
Foi uma aclamação geral. O urso que tinha adormecido, entretanto, acordou sobressaltado e perguntou a um pinguim que agitava desesperadamente as asas minúsculas:
- O que aconteceu? Foi choque de icebergues?
- Nada disso. O pinguim colorido está a ensinar-nos a voar. Vamos proclamá-lo rei, rei dos pinguins.
Aquilo já não interessava ao Urso Branco. Virou-se para o outro lado e voltou a fechar os olhos. Mas, antes de adormecer, ainda sentenciou:
- Em terra de pinguins pretos e brancos, qualquer fruta-cores é rei.
E adormeceu, definitivamente.

Por António Torrado | Cristina Malaquias

Tirem as ilações que acharem convenientes. Eu até já sei o que vem aí do amigo João e não só... eu própria estou a pensar num certo "passarote" - bem vulgar por sinal - que anda mais depenado do que galinha pronta a ser cozinhada, mas sempre todo empertigado e a tentar recolar as penas a todo o custo.
Esse já nem penas tens, mas pavoneia-se como se ave real fosse...e mais grave ainda, também tenta ensinar "pinguins a nadar"...



Na casa do Rau

13 comentários:

Chica disse...

Que lindo conto e bom pra reflexões!Um lindo feriado,beijos,chica

José disse...

Olá Amiga Fernanda! Fiquei encantado
com este conto, muito bem contado.
E gostei mais ainda da parte final,
eu conhece alguns passa rotos, que mudam de cor, conforme as suas conveniências arranjam esse disfarço, para poderem palmar outras aves, mais desprovenidas.

São as tais aves de rapina.
um beijinho,
José

direitinho disse...

Olá boa tarde
Tantos pássaros a mudar de cores e de penas conforme os ventos e as conveniências.
O papagaio teve sorte deu em terra de cegos...

Luis disse...

Minha Querida Amiga NÁ,
Belo conto e com várias hipóteses de "Moral da História", o que o torna mais aliciante. Como diria alguém: "cada côr seu paladar"!!!
Para mim reflete que "quem tem um olho é Rei!" e nesse caso o papagaio seria o "pinóquio" e os pinguins os que nele votaram convencidos que iam voar...
Um beijinho amigo.

Pedro Ferreira disse...

Olá mãe!

Até aposto que sei onde estás!!!
Aqui chove há dias e está frio.
Nem sabes as saudades que tenho do nosso cantinho, apesar de tudo.

O conto está engraçado, e todos os comentários vão para o campo da política.
Aqui li eu e a Patrícia, que já tem dificuldades grandes sobretudo para ler e escrever português.
Faz-lhes muito bem ler estes contos que são para todos, mas também acessíveis a crianças.

Parabéns pela ideia.

Beijinhos
Pedro

orvalho do ceu disse...

Olá, e semrpre bom a gente usar a net para coisas saudáveis...
Gosto do que leio por aqui.
Abraços fraternais e ótimo dia cheio de paz!
Olhar as fotos postadas me inspiram justamente isso.
Obrigado.

A. João Soares disse...

Querida Amiga Ná,

Isso não se faz, atirar-me sem rede para o arame, é um homicídio!!!
Há muitos papagaios, tantos que nem quero referir-me a um qualquer. Mesmo em pequenos grupos, pode aparecer um espertalhão que deslumbra ou ofusca os outros, dizendo uma ou duas balelas.
Como diz o Luís, com o seu vasto conhecimento de ditos populares, «em terra de cegos quem tem um olho é Rei». Infelizmente, somos quase todos ceguinhos, nesse aspecto, e somos levados por um qualquer papagaio mesmo que não tenha penas coloridas.

Quando me aparece um papagaio facilmente detectável, ajusto logo os travões às quatro rodas, para evitar ser rebocado para espaços que não me convenham. (A não ser que sejam do tipo Bruna Real mas sem silicones!)

A brincadeira deve-se a ser feriado e a temperatura estar elevada.

Beijos
João
Do Miradouro

Maria Beatriz Ferreira disse...

Querida Ná!

Mais uma das que agradam a todos, todos mesmo.
Nós tiramos as nossas conclusões, não muito longe das tuas, claro!
As muídas acharam a história deliciosa.

Obrigada!
Que bem que se deve estar por aí, estou-te a ver ao sol, a ler um livro à beirinha da água.
Acertei, não foi?

Beijos
Beatriz

Fernanda disse...

Queridos amigos, Pedro e Beatriz,

Todos lemos a mesma história, eu não fiz nenhuma maldade amigo João, só sei o que sei, porque sei...
A verdade é que se podem tirar várias conclusões, mas quase todos foram pelo caminho da política.
Porque será???

Quando se está deslocado do ambiente natural, o mais natural é sentir desconforto, mal estar e até ter de abandonar sob pena de morte.
O papagaio precisa de calor tropical para viver e o urso do frio dos pólos. So far...so good!
Cada macaco no seu galho, já que estamos em maré de provérbios.

Agora, quando um papagaio, que está completamente fora do seu habitat pensa ser capaz de ensinar pinguins a voar!!!

Mas como isto é um conto e nos contos tudo é possível, pronto pensemos que é possível.

Neste dia lindo de sol e temperaturas altas, há novas fotos que vão gostar muito, tenho a certeza, e houve uma tarde de sol a aproveitar...que bem que me soube.

Beijinhos e obrigada pelos comentários,

Irene Moreira disse...


A história é muito boa e confesso que tenho que parar paar refletir bem antes de comentar algo.
Beijos

Ana Martins disse...

Querida Ná,
Os nossos papagaios bem podem papaguear à vontade que já nem os ouço e mesmo tentando colorir os discursos, já só vejo tudo a preto e branco.

Beijinhos,
Ana Martins

Fernanda disse...

Minhas querida Irene e Ana,

Obrigada pelos vossos comentários.
Irene, reflecte amiga, sei que tirarás uma boa lição do conto.

Ana, amiga!
Infelizmente dá vontade de não os ouvirmos, mas para bem de todos, temos que ouvi-los e bem, abrir bem os olhos e ver a obra feita, se nos desinteressarmos completamente vamos acordar quando???

Beijinhos

A. João Soares disse...

A T E N Ç Ã O

O REPETIDO DESAPARECIMENTO DE IMAGENS NOS POSTS DESTA COLABORADORA DEVE-SE, PROVAVELMENTE, A UM «LAPSO» DELA.
Pedimos paciência aos amigos visitantes.

Cumprimentos
João