09/06/2010

Conto do dia

Um peixe na sala

Por António Torrado Cristina Malaquias, 9 de Junho de 2009


- Não gosto nada que olhem para mim - dizia o peixinho vermelho com riscas azuis, que morava no aquário.
Era um grande globo de vidro, enfeitado com algas, umas verdadeiras, outras a fingir, e estava, em lugar de destaque, na sala da tia Elisa.
Quem ia fazer uma visita à tia Elisa dava sempre uma mirada ao peixinho, que revolteava na água, muito enervado.
- Detesto que me observem - dizia o peixe. - Se as pessoas vivessem em aquários também não gostavam que andassem a espreitar para dentro das casas delas.
E o peixinho tentava esconder-se por trás de umas algas, mas sem nenhum êxito. Ou sobrava cauda ou sobrava cabeça.
A tia Elisa, que era uma simpática velhinha, cuidava dele com todo o desvelo. O peixe conhecia-a bem e agradava-se das suas atenções. Era, aliás, a única pessoa que ele tolerava.
Mas a tia Elisa adoeceu. Doença grave. Vieram os médicos, parentes e amigos, que passaram a falar em voz baixa na sala de visitas, com ar muito preocupado. A única coisa que lhes atenuava a preocupação era o peixinho vermelho com riscas azuis, revolteando, alegre e indiferente, no meio do seu globo de vidro. Alegre e indiferente, julgavam eles, porque o peixinho não parava de queixar-se:
- Embirro que olhem para mim. Esta gente toda não tem mais nada que fazer senão postar-se, de olhos arregalados, diante do meu aquário?
Uma dessas pessoas, que distraidamente observava o peixe, teve o seguinte desabafo:
- Não sei quem vai cuidar do peixe, quando a tia Elisa desaparecer.
Para o peixe, a tia Elisa há muito que tinha desaparecido. Desde que adoecera. Quem lhe polvilhava a superfície da água com a ração diária de comida era uma empregada, mas sem as gentilezas da tia Elisa. O peixe sentia a diferença.
Até que, um dia, a tia Elisa morreu. Ficou a sala que tempos sem visitas, de cortinas descidas, portadas cerradas. Mas o peixe sentiu-se mais aliviado.
Entretanto, vieram os sobrinhos para desfazer a casa.
- Quem quer ficar com o peixe do aquário? - perguntou um deles.
Nenhum queria.
- Deita-se o peixe para o tanque do quintal - decidiu um e os outros concordaram.
O peixinho vermelho com riscas azuis foi parar a um tanque de águas profundas. Podia nadar à vontade, pelo meio das sombras e dos lodos, que já ninguém o via.
Foi então e só então que o peixe vermelho começou a sentir saudades do tempo em que todos olhavam para ele.

Decidi não fazer qualquer introdução ou dar a minha opinião, deixo isso para cada um de vós; os que se dignarem ler este aparente simples conto e comentá-lo.

Beijinhos a todos.

Na Casa do Rau

8 comentários:

A. João Soares disse...

Querida Ná,

É muito frequente a desadaptação das pessoas, e pelos vistos dos animais, às realidades em que vivem. Aquilo de que podemos e devemos tirar proveito para o nosso equilíbrio psíquico não é devidamente avaliado. Mas diz o ditado popular: «depois de mim virá quem bom de mim fará». Depois tem-se saudades da situação anterior.
Enfim., a perfeição não existe, senão nas nossa utopias, esperanças e desejos!!!

Beijos
João
Do Miradouro

direitinho disse...

É verdade que muitas vezes estamos sob o olhar curioso de alguem e que detestamos essas posições.
Outros dias nos enchemos de maior vaidade e queremos impressionar todos.

Maria Beatriz Ferreira disse...

Olá Ná!

Hoje fizeste as delícias das minhas netas e não só!

Normalmente acontece mesmo assim, quando se está na ribalta, ou se é tão somente alvo de atenções, podemos sentir-nos desconfortáveis, mas ser completamente ignorado e viver só nas trevas, completamente longe da luz é muito deprimente.

Todos gostamos de um elogio e que olhem para nós.

Beijinhos
Beatriz

Irene Moreira disse...


Este conto fala do peixinho no aquário e sua reação ao ser colocado no tanque do quintal onde o certo seria estar feliz por não ficar mais aos olhos dos outros.
E quem já não reclamou de alguma coisa e depois veio a sentir falta ?
Pode ser um peixinho neste conto masd é um retrato vivo do cotidiano da vida Humana.
Beijos

Pedro Ferreira disse...

Querida mãe!

Estes contos são deliciosos e fazem as delícias das meninas da Fátima... e não só.

Pois é como se percebe, todos nós, gente saudável, gosta do meio termo, bem de ser alvo de todas as atenções, estar na mira dos outros contantemente é horrível, não há sentido de privacidade, mas ser completamente ignorado é sentir-se excluído.
Como sempre a virtude está no equilíbrio dessa balança, nem tudo nem nada.

Beijinhos para ti e para o pai.
Amo-vos.

Pedro

Luis disse...

Minha Querida Amiga NÁ,
Hoje depois de acompanhar o meu amigo à sua última morada estou mais disponível para aqui comentar.
O conto merece a nossa reflexão e como moral podemos dizer: "que quem tudo quer tudo perde"!
Um beijinho amigo.

Fernanda disse...

Meus queridos amigoa e amigas!

É com muito prazer que verifico que estes contos são tanto do meu agrado como do vosso.

Obrigada pelos comentários, sempre bem vindos.

Beijinhos

A. João Soares disse...

A T E N Ç Ã O

O REPETIDO DESAPARECIMENTO DE IMAGENS NOS POSTS DESTA COLABORADORA DEVE-SE, PROVAVELMENTE, A UM «LAPSO» DELA.
Pedimos paciência aos amigos visitantes.

Cumprimentos
João