22/06/2010

Conto do dia


Da erva à árvore

Eram dunas e dunas, a perder de vista. Montes de areia para o vento brincar...
Hoje, fazia uma duna maior aqui, amanhã apagava-a, para fazê-la mais além e, sempre segundo os seus caprichos, onde estavam montes, cavava vales, onde estavam vales, amoldava montes. O vento era uma vassoura enorme.
Cabeleiras dóceis de ervinhas rasteiras deixavam-se pentear, despentear, ao sabor do vento gigante. Ele é que mandava.

Uma delas, à beira de um tojo só picos, cresceu.
Delgadinha que era arriscou-se à vida. Rompera a areia e apontava para cima. Ela lá sabia.
De dentes a ranger, o vento passou. Partiu-se o tronquinho? Não se partiu. Fincava as raízes, segurava-se com toda a força e, quando o vento descia, inclinava-se à vontade dele. Tinha de ser assim.
Lá se foi aguentando. O vento, a princípio, nem dava por ela. Era uma erva como as outras. Senhor daquelas dunas, o que ele queria era disciplina, ordem, submissão. A erva, que erva afinal não era, submetia-se. Óptimo.
Foi crescendo e o vento sem dar por ela. Era um tronco já, uma arvorezinha de Natal para casa de bonecas. Outras ervinhas como, dantes, ela tinha sido, despontavam também, na mesma duna.

Ali havia uma pequena nação de pinheiros novos. A ordem era: persistir. Por enquanto, persistir. Resistir, seria para depois. E foram vingando.
Quando o vento deu por eles, teve uma grande cólera e soprou, dias a fio, sobre a duna, donde nascia, miudamente, frágil ainda, um sinal de rebeldia ao seu poder. Nada conseguiu. Os pinheiros sabiam que eram pinheiros.
Tinham raça e coragem para fazer frente ao vento.
Uns e outros, os maiores e os mais pequenos, começaram a olhar para a sombra.
Alastravam para outras dunas. Guerreiros chamavam por outros guerreiros e desafiavam o vento. “Nada podes contra nós”, gritavam-lhe.

O maior, o chefe, o mais velho, que da erva se fez tronco, do tronco se fez árvore, comandava a defesa e dizia aos mais novos, nas alturas em que o vento lhes fazia ranger os ramos: “Aguentem, que já passámos por pior”.
Eles aguentavam.
E foi assim que o vento, o gigante caprichoso que dantes arrasava dunas, teve de deixar de fazer castelos na areia.

António Torrado
Este é mais um dos deliciosos contos que recebo diariamente.
Gostei particularmente deste, embora o mesmo não corresponda exactamente ao conto do dia de hoje.
Espero que partilhem da minha opinião e que façam os vossos comentários quanto às lições a tirar...

11 comentários:

A. João Soares disse...

Querida Ná,

A rebeldia, a insubmissão, com regra, método e muita persistência podem dar a volta ás dunas e transformar o pântano num país moderno e exemplar!!!
Sugiro a leitura do post que concretiza a lição que daqui se pode tirar É urgente uma ruptura seguida de reestruturação.

Beijos
João

Celle disse...

Ná, este conto lembrou-me a história do Bambu Chinês. Ambas nos mostram que não devemos desistir de nossos propósitos, devemos sempre persistir.Precisamos cultivar a paciência e caminhar em frente para alcançarmos nossos objetivos.
bjs, Celle

Ana Martins disse...

Querida amiga,
a paciência, união, força e coragem são virtudes que só nos podem ajudar a vencer as batalhas que por vezes somos forçados a travar.

Este conto ajuda-nos a reflectir e a tomar conciencia de que nem sempre agimos assim.

Beijinhos,
Ana Martins
Ave Sem Asas

Milai disse...

Olá Ná!
Também gostei imenso deste conto. E concordo inteiramente com os comentaristas acima. Ele contém todas estas lições que devemos tirar da vida
Este conto fez-me lembrar da História do Fernão Capelo Gaivota, que já li há muitos anos e que para mim foi muito importante.
Beijinhos

Agulheta disse...

Querida Ná. Mais uma prova que a paciência,força e coragem,nos ajuda a enfrentar os desafios.Tenho andado a passear um pouco,como sabes agora vou para um lado depois para outro,amanhã vou ao Sul e ando de malas ultimamente.
Uma das razões para alguma ausência,mas faço o possível para comentar se tiver computador.
Beijinho para ambos pelos 35 e venham muitos mais.

Luis disse...

Querida Ná,
Como moral deste conto direi: Nem sempre a força vence pois o velho ditado diz-nos que "água mole em pedra dura tanto dá até que fura"!
A persistência como se viu levou a sua à vante!!!
Beijinhos amigos.

Fernanda disse...

Queridos amigos,

Obrigada pelo vossos comentários.

Por alguma razão escolji este conto...
Todas as vossas conclusões ou lições tiradas do conto vêm ao encontro do que eu própria penso.

Beijinhos

Kyria disse...

Fernanda,
coragem, bravura, determinação, persistência,adaptação.
Assim é a vida, havemos de perceber nos vários momentos distintos em que vivemos qual a atitude adequada que precisamos abraçar a cada instante com valentia e ânimo.
bjs viu?

Maria Beatriz Ferreira disse...

Querida Ná!

Adoramos este conto!

Tens que me dizer qual é a fonte para eu ter que ler às miúdas agora que o ano lectivo está a acabar.

Estes contos são tão didácticos, estão tão bem escritos, dão-nos tantas lições e fazem-nos reflectir profundamente que são preciosos mesmo.

Vai publicando, eu adoro-os.
Beijinhos
Beatriz

Fernanda disse...

Amiga Kyria e Beatriz!

Ainda bem que estes contos despertam todas estas reacções.

Gostei muito do comentário da amiga Kyria, como sempre, e com ela concordo em absoluto.

Beatriz, eu conto, podes estar descansada.

Beijinhos

A. João Soares disse...

A T E N Ç Ã O

O REPETIDO DESAPARECIMENTO DE IMAGENS NOS POSTS DESTA COLABORADORA DEVE-SE, PROVAVELMENTE, A UM «LAPSO» DELA.
Pedimos paciência aos amigos visitantes.

Cumprimentos
João