31/05/2010

A obra mais bela


Na oficina do escultor, havia grande animação. Chegara uma pedra de cantaria, que foi colocada no meio da sala por oito homens possantes. Oito homens, imagine-se! Pesado serviço aquele.
O escultor pagou-lhes e mandou-os embora. Depois olhou para o bloco, acariciou a pedra, deu uma volta por ali e saiu atrás dos carregadores.
A sala ficou vazia de gente, mas continuou cheia de estátuas. Seriam talvez umas dez estátuas dispostas junto às paredes. Algumas já acabadas, prontas para partir, outras à espera que a mão do escultor as desse por terminadas. Após a saída das pessoas, cabia-lhes agora a vez de falarem.
Afinal as estátuas falam?
Sim, nas histórias, têm autorização para falar. Vão ouvi-las.
A que estava mais afastada do bloco de pedra perguntou às colegas:
- Que avantesma é aquela?
Houve risinhos entre as estátuas
Então, a que representava a Vaidade declarou:
- Companheiros destes não fazem cá falta, só ocupam espaço e tiram a luz a quem, como eu, precisa de ser destacada.
Era realmente muito vaidosa a estátua da Vaidade.
- A mim é que ela tira a luz - rectificou a estátua que representava um monge sentado a ler um livro.
- Estou aqui, há imenso tempo, a ler este alfarrábio e não consigo passar da mesma página.
A estátua do Arlequim também se queixou:
- Aqui abafa-se. Apetecia-me pular e correr, mas esta pedra atravanca tudo.
A estátua do Atlas, o gigante que suportava o mundo sobre os ombros, acudiu:
- Se queres fazer alguma coisa de jeito, segura por um bocadinho na minha carga, porque quase tenho os braços dormentes. De caminho, aproveito e arrasto para outro lado essa maldita pedra, que já me está a causar engulhos.

Mas o Arlequim fez-se desentendido. Não estava para trabalhos.
A estátua inacabada de um rei qualquer ainda murmurou:
- Ordeno que... - mas, como estava muito incompleta, não conseguiu acabar a frase.
Na manhã seguinte, o escultor começou a trabalhar o bloco de pedra. Desbastou-o muito.

O penedo foi ganhando forma.
As estátuas em roda olhavam para aquilo em silêncio, desconfiadas. Mal ele abalou, a estátua lá do fundo inquiriu:
- Que irá dali sair?
Respondeu o Arlequim:
- Um elefante, pois. Que outra coisa esperam?
Aquilo, de facto, intrigava.

O escultor trabalhou dias a fio e, do coração da pedra, muito lentamente, uma figura começou a erguer-se. Adivinhavam-se os ombros, a cabeça, os joelhos. Parecia uma figura sentada, coberta com um lençol amarrotado.
Durante a noite, as outras estátuas não se calavam.
- Tem um ombro mais alto que o outro - observava uma.

- E uma cabeça monstruosa - acrescentava outra.
Mas a cabeça monstruosa, pela arte do escultor, foi-se transformando numa delicada cabeça de mulher. Estava sentada a estátua. Tinha as mãos no colo, como se guardasse algo, que ainda não conseguia distinguir-se bem.

- Naturalmente está a ler um livro - alvitrava o monge.
Afinal não era um livro o que ela olhava. Era uma criança. O escultor passara o dia a apurar as feições do bebé. No fim, antes de sair, alargou o sorriso da mãe e foi-se embora.
As outras estátuas, muito despeitadas, continuaram na má-língua.


-Que tempo mal-empregado - dizia a estátua da Vaidade.
-Não trocava a minha carga pela daquela mulher - declarava o gigante Atlas.
- Que boneco tão patareco - gargalhava o Arlequim.

Mas uma voz clara e nova naquela sala sobressaiu da restolhada venenosa das outras estátuas, para pronunciar estas palavras:
- Deixem-se de falas! O menino está a dormir.
Inspirava respeito aquela voz. As estátuas calaram-se.

Nos dias que se seguiram, o escultor demorou-se, pela noite adiante, a completar a estátua da mãe e do menino. Era a sua mais bela obra.

A obra mais bela
António Torrado
escreveu.


Espero que gostem tanto deste conto como eu....
Adorava receber as vossas opiniões.
Fernanda (Ná)

9 comentários:

Beta disse...

Linda imagem! Linda história!
Adorei Ná!
bj

A. João Soares disse...

Quariga Amiga Ná,

Para deixar dormir o menino, vou ser breve. Faço minhas as palavras da amiga Beta!

Beijos
João
Do Miradouro

Maria Beatriz Ferreira disse...

Olá Ná!

A Catarina e eu já lemos e adoramos.
Falta a Branca e a Daniela. Depois com a ajuda da Branca, a Srª.Professora, tiraremos todas as lições.
Para já, este é um conto que revela, na perfeição, o comportamento humano.
Infelizmente é bem assim.
A Inveja, a cobiça, a vaidade são sentimentos corrosivos, venenosos, que dominam cada vez mais na nossa sociedade.

Obrigada pelo conto.
Beijinhos
Beatriz.

Ana Martins disse...

Querida amiga Ná,
e um conto lindíssimo sim, haverá imagem mais bonita que a de uma Mãe a sorrir para o filho enquanto ele dorme no seu colo?
Penso que não!

Beijinhos,
Ana Martins

Luis disse...

Minha Querida Amiga NÁ,
Esta sua série de um conto diário está-nos a trazer lindas histórias e a fazer-nos pensar. O presente conto reflete a vida que ora se vive onde a feira de vaidades, o egoísmo e falta de bons Valores prolifera. A imagem escrita e a que encima o conto são na realidade muito lindas e dão para se pensar!!!
Um beijinho muito amigo.

Fernanda disse...

Queridos amigos e amigas,

Obrigada pelos vossos comentários que muito apreciei.

Como já havia informado antes, a intenção é contar um conto que nos traga uma lição e que seja simultâneamente simples e estendível a todos, todos mesmo, incluindo crianças.

Na verdade não tenho publicado o conto do dia, mas como consegui acesso a todos os contos já publicados, consigo escolher o que mais me diz no momento.

Espero que continuem a gostar das minhas escolhas.
Beijos a todos,

A. João Soares disse...

A T E N Ç Ã O

O REPETIDO DESAPARECIMENTO DE IMAGENS NOS POSTS DESTA COLABORADORA DEVE-SE, PROVAVELMENTE, A UM «LAPSO» DELA.
Pedimos paciência aos amigos visitantes.

Cumprimentos
João

Anónimo disse...

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