23/05/2010

São Flores


Como prefácio, direi que esta é mais uma das muitas histórias que me chegam diariamente via Internet e que eu acho magníficas.

Como já disse anteriormente, nem eu me lembro como e o que fiz para as receber, mas a verdade é que elas me chegam, como se alguém soubesse do que preciso, do que precisamos todos; de alguns contos simples com verdadeiras lições e todas diferentes.

Ler uma grande obra literária é algo maravilhoso, ler é sempre didáctico, ler pode ser muito relaxante, empolgante, emocionante, divertido, tanta coisa maravilhosa que me é difícil descrever.
Ler deve ser, antes de mais algo que nos satisfaça, que nos dê um imenso prazer.
Para quem lê pouco, ou mesmo para os mais letrados, os fanáticos das obras ditas mais pesadas, sabe tão bem ler um pequeno texto, simples mas edificante...
Espero que gostem deste...eu adorei.

Estava uma flor bordada num saco de guardanapo a olhar para uma flor pintada numa jarra de porcelana. E vice-versa.
A flor bordada queria meter conversa com a flor pintada. E vice-versa.
Entretanto, a flor bordada pensava: "Sou mais bonita do que ela." E vice-versa.
Até que a flor bordada resolveu dizer precisamente o contrário do que pensava:
- Nunca vi flor mais bonita do que tu.
A flor da jarra retorquiu, no mesmo tom:
- Tu, sim, és a mais bonita. Uma perfeita imitação.
Neste ponto, a conversa estragou-se.
- Imitação?
- estranhou a flor do saco de guardanapo. - Imitação de quê?
- Imitação de uma flor verdadeira - respondeu a flor pintada na jarra.
- Ora essa! Eu sou uma flor incomparável, uma flor bordada, verdadeiramente bordada com toda a verdade da arte.
Agora, enfim, estava a dizer o que pensava.
Não lhe ficou atrás a outra flor:
- Verdadeira obra de arte sou eu. Não há flor pintada mais autêntica, pode crer.
Argumentaram, discutiram, zangaram-se. Perderam a elegância do trato. Passaram a dizer mais do que pensavam:
- Você é uma reles imitação - dizia a flor pintada.
- E você é uma falsificação barata - dizia a flor bordada.
Nisto, mãos femininas vieram colocar uma flor na jarra, até então vazia.
- Qual é o tema da discussão? - quis saber a recém-vinda, debruçada da jarra.
Puseram-na a par da disputa e logo a nova flor, que era dotada de um caule esguio, folhagem vaporosa e pétalas gentis, rodopiou na jarra de porcelana, para dizer, num risinho de superioridade:
- Não sejam ridículas e olhem para mim. Haverá flor mais encantadora e mais verdadeira do que eu?
As duas outras calaram-se.
Afinal, a flor de folhas frágeis, que qualquer corrente de ar agitava, a flor de longa haste, mergulhada na jarra, é que tinha razão.
Aqui para nós e em segredo, diremos que também não tinha razão nenhuma. Pois se ela era apenas uma simples flor de papel...

António Torrado

Imagem - pintura de Steven Hughes
Fernanda Ferreira (Ná)

8 comentários:

A. João Soares disse...

Querida Amiga Ná,

Um conto instrutivo como são quase todos. A competição, a ostentação, a vaidade. a vacuiade de espírito, a corrida para os votos, para os admiradores, para os aplausos, enfim as venalidades da vida.

A vida moderna tem destes actos primários e debelitantes. Há pouco ouvi na TV : devia ser um grupo de crianças muito pequenas e uma vos de senhora, talvez educadora ou apresentadora da TV. A senhora fazia uma pergunta e todas em coro diziam sssiiimmm, isto aconteceu com três ou quatro perguntas. Como gosto de aprender com as pequenas coisas, fiquei a saber porque o nosso povo age como um rebanho de dóceis ovelhas. Compreendi como no congresso do PSD a velhada presente votou por unanimidade a «lei da rolha» e depois de estarem cá fora todos se diziam arrependidos.
As pessoas agem como ovelhas e não estão habituadas a ter voz própria a serem capazes de responder a uns porquês que deviam colocar a si próprias para justificarem o que dizem ou fazem.
E diabolicamente, as crianças estão a ser preparadas para «votarem» sem pensar, com um sssiiimmm ou um nnnãããooo, em coro com os noutros.
Como as flores do conto, perdem-se as energias com futilidades, com o dizer mal ou bem, em sintonia com as ordens do pastor.

Beijos
João
Do Miradouro

Chica disse...

Que linda mensagem pra refletir nesse conto,não? LINDO!beijos,tudo de bom,chica

Marliborges disse...

Mensagem muito interessante. Mil reflexões. Pensei direto nas lavagens mentais a que estamos sendo submetidos diariamente pela midia.
Bjssssssss

Efigênia Coutinho disse...

Bom dia, de um dia lindo aqui em new York, adorei ler este post seu de hoje, sempre tiramos alguma reflexão destes contos, meus
PARABÉNS,
Efigênia Coutinho

Ana Martins disse...

Querida Ná,
maravilhoso, não me admira nada que o tenhas adorado.
Mas para além disso este texto aponta para aspectos muito importantes, a arrogância, a falsidade, a vaidade e superioridade, sentimentos que em nada valorizam o Ser Humano e que só podem trazer descontentamento e mal estar.

Muito bom para reflectir!

Beijinhos,
Ana Martins

Luis disse...

Querida Ná,
Esta história é bem ilustrativa do momento que vivemos - Feira de Vaidades - onde tudo se discute não pelo que é real mas no Faz-de-Conta. Até a flor de papel quer ser melhor que as naturais...
Um beijinho amigo.

Fernanda disse...

Queridos amigos e amigas,

Agradeço os vossos comentários, e espero que cada um que tenha lido, tenha tirado daqui uma lição.
Eu tirei, todos podemos sempre aprender algo, tirar uma lição, mesmo que diferente, de um conto tão simples quanto este.


Beijinhos

A. João Soares disse...

A T E N Ç Ã O

O REPETIDO DESAPARECIMENTO DE IMAGENS NOS POSTS DESTA COLABORADORA DEVE-SE, PROVAVELMENTE, A UM «LAPSO» DELA.
Pedimos paciência aos amigos visitantes.

Cumprimentos
João