06/08/2010

Bolo de Chocolate em tempo de Páscoa

Segunda e última parte do conto.

A última fornada deste forno que ardia desde a alta madrugada, já com a temperatura mais amena, servia para cozer os bolos de chocolate da D. Belinha. Pelo menos, assim aconteceu, naquele ano em que a Páscoa foi bem alta (mês de Abril do ano de 1957).

- E a D. Belinha que não vem, – disse a minha mãe, num sopro de desalento.
- Eu posso lá ir. A casa não é longe. Venho depressa. Sim?

- Chamas pela D. Belinha à entrada do portão. Entregas-lhe o bolo e vens embora bem depressa. A procissão deve estar a sair da igreja.
Assim fiz. Fui o mais depressa possível. Com os braços ocupados e sentindo algum peso, por via do bolo de chocolate, o caminho parecia mais longo. Chegada ao portão de ferro, de cor verde e antes de subir o patamar, em pedra de granito construído, chamei pela D. Belinha, como a minha mãe me havia indicado. Como não respondeu, resolvi subir para o patamar. Sem saber como, nem porquê, caí de forma estrondosa contra o portão. Não sei quanto tempo passou, só sei que quando abri os olhos, vi a D. Belinha junto de mim e mais à frente, espalhados pelo chão, o tabuleiro, o pano branco e o bolo de chocolate. Senti uma dor forte nos joelhos e as lágrimas correram até ao chão. Pensei na minha mãe…

Depois de terminado o tratamento aos meus joelhos, levantei-me da cadeira, onde me haviam sentado, bem juntinho daquela mesa tão cheia de tanto, lancei um último olhar para o bolo de chocolate e disse:
- Por favor, não diga nada à minha mãe.

Já na rua e a caminho de casa, senti as pernas a tremer e a cabeça a andar à roda. Chorava por dentro. Chorava tanto! Não sentia as lágrimas que corriam, mas toda eu chorava em ondas como lamentos. Seria por ter caído? Ou por não ter comido uma fatia do bolo de chocolate?
A minha mãe esperava-me. Estava bonita com aquela blusa branca. Estendeu-me a mão ainda quente de toda aquela lida matinal e com a outra mão arregaçou o cabelo e esticou o cansaço, dizendo:
-Vamos?
Fomos.

Fim.
Maria José Areal.

Versão sintetizada da própria autora para este Blog.

9 comentários:

J.Ferreira disse...

Sei que esta sinopse do conto te foi enviado por e-mail pela Maria José.
Sei ainda que o conto original será publicado no teu Blog, para o efeito criado, o que é um alívio.

Comecei a ler o conto lá e lá terminarei, porque apesar de estar muito bem resumido e o essencial aqui dito, falta a total narração da autora que é absolutamente fabulosa, não só a lidar com as palavras como com as emoções.

Fico atento!
Entendo que aqui neste espaço, não caibam contos longos, mas lamento!

Beijo
J.Ferreira

A. João Soares disse...

Acho a ideia do Amigo José ferreira, muito boa. Aqui que é um blog generalista, pode ser colocado apenas um aperitivo a indicar onde se encontra o texto comprido. Quem sentir gosto e curiosidade irá lá deleitar-se com a literatura.

Cumprimentos
João
Do Miradouro

Pedro Ferreira disse...

Mãe!

Ainda só li aqui, não sei o que publicaste no teu Blog de contos, passo lá noutro dia.
Mal possa.

Sei que tudo o que a Zezinha escreve, eu adoro!
Ela tem mesmo o dom das palavras.
Obrigado pela divulgação.

Beijos e abraços.
Pedro

lolipop disse...

Querida Ná:
Tal como o Pedro ainda só vim aqui, mas adorei.
Já apreciava e muito, a poesia da Maria José, agora fiquei maravilhada com a prosa.
Ternuras

Rogério Pereira disse...

Lendo, parece ficar a ideia
que todos nós,
um dia, ainda crianças, tivemos um qualquer bolo para entregar e que ao deixá-lo cair ter-nos-á caido, ainda que por momentos, também a alma...
(a mim, caiu-me a garrafa de azeite que ia ser retribuida a quem a tinha emprestado a minha mãe...)

Ana Martins disse...

Querida amiga Ná,
belíssimo este conto de Maria José Areal, pena que o bolo se despedaçou e a menina se feriu. Tal como diz Rogério Pereira todos nós temos algo parecido para contar de quando éramos crianças.

Beijinhos,
Ana Martins
Ave Sem Asas

Fernanda disse...

Olá a todos e um muito obrigada pelos vossos comentários!

A autora está para fora, a descansar que bem precisa.
Em seu nome agradeço as vossas palavras que sei verdadeiras. Quem não gosta do que a Maria José escreve...não gosta de nada!!!!!
Eu adoro!

Um beijos a todos, em especial para os meus mais queridos.

A. João Soares disse...

Uma literatura interessante, poética em forma de prosa, «arregaçou o cabelo e esticou o cansaço». Liberdades poéticas que escapam à interpretação da frase e ao significado das palavras.

Beijos
João
Do Miradouro

A. João Soares disse...

A T E N Ç Ã O

O REPETIDO DESAPARECIMENTO DE IMAGENS NOS POSTS DESTA COLABORADORA DEVE-SE, PROVAVELMENTE, A UM «LAPSO» DELA.
Pedimos paciência aos amigos visitantes.

Cumprimentos
João