03/03/2011

Ouvimos dizer ...


Ouvimos dizer: 
Não queres continuar a trabalhar connosco.
Estás arrasado. Já não podes andar de cá para lá.
Estás muito cansado. Já não és capaz de aprender.
Estás liquidado.
Não se pode exigir de ti que faças mais.

Pois fica sabendo:
Nós exigimo-lo.

Se estiveres cansado e adormeceres
Ninguém te acordará nem dirá:
Levanta-te, está aqui a comida.
Porque é que a comida havia de estar ali?
Se não podes andar de cá pra lá
Ficarás estendido. Ninguém
Te irá buscar e dizer:
Houve uma revolução. As fábricas
Esperam por ti.
Porque é que havia de haver uma revolução?
Quando estiveres morto, virão enterrar-te
Quer tu sejas ou não culpado da tua morte.

Tu dizes:
Que já lutaste muito tempo. Que já não podes lutar mais.
Pois ouve:
Quer tu tenhas culpa ou não:
Se já não podes lutar mais, serás destruído.

Dizes tu:
Que esperaste muito tempo. Que já não podes ter esperanças.
Que esperavas tu?
Que a luta fosse fácil?

Não é esse o caso:
A nossa situação é pior do que tu julgavas.

É assim:
Se não levarmos a cabo o sobre-humano
Estamos perdidos.
Se não pudermos fazer o que ninguém de nós pode exigir
Afundar-nos-emos.

Os nossos inimigos só esperam
Que nós nos cansemos.

Quando a luta é mais encarniçada
É que os lutadores estão mais cansados.
Os lutadores que estão cansados demais perdem a batalha.



Bertoldt Brecht - Três poemas em versão portuguesa de Paulo Quintela, in: separata da revista "Vértice", n.º 382-383 (Nov.-Dez. 1975)

4 comentários:

A. João Soares disse...

Amiga Fê,

A vida é luta contra o tempo , contra a distância, contra as dificuldades, etc. Parar de avançar para os objectivos, é ser atropelado e esmagado pelos que vêm a seguir. Deixar de comer é morrer de fome. Costumo aqui referir o exemplo da água dos rios. Nunca desiste e quando não consegue tornear ou ultrapassar os obstáculos, fica pântano, pestilento, é a morte.
Enquanto pudermos devemos mexer, porque parar é morrer.

Uma poesia que faz pensar. Também não devemos deixar de pensar. A humanidade espera muito do pensamento de cada um, sendo desejável que haja muitos pensamentos positivos, cívicos.

Beijos
João
Do Miradouro

Brown Eyes disse...

Fê por saber que ninguém é mais amigo de mim que eu, que ninguém mais me poderá ajudar se eu não me ajudar, que ninguém mais do que eu me poderá levantar é que, mesmo cansada, continuo a lutar. Excelente. Beijinhos.

Luís Coelho disse...

Todas as lutas e batalhas tem um final e ninguém por mais forte e resistente as suportará indefinidamente.

Este desgaste psicológico hoje é sabiamente aproveitado pelos políticos e outros agentes de propaganda e até no próprio emprego.

É preciso vencê-los a todos.
É preciso descobrir para lá das promessas enfeitadas ....

No emprego é preciso enfrentar os medos com que nos querem derrubar.
Trabalhar sempre dando o nosso melhor mas sem nos deixarmos escravizar nem pelos patrões nem pelos colegas armados em delegados da autoridade.

Luis disse...

Minha Querida Amiga Fê,
Belo poema que vem muito a propósito!
Acredite que a luta não me cansa, o que me cansa a "passividade acarneirada" com que o nosso povo suporta tudo isto que temos vindo a sofrer...
Esperemos que acorde e "os" obrigue a entrar nos eixos... Ainda que tarde!
Um abraço amigo e solidário.