24/02/2011

Silenciosamente Poderosa

Sobre o tema o silêncio, vou gritar contra a esperteza silenciosa que conquista os inocentes, os humildes e os crentes.
Não sou mulher de silenciar manipulações, condicionamentos, influencias, adulterações, falsificações, em proveito de um, ou vários, manipuladores.
Manipular, através das palavras e do conhecimento, um indivíduo ou um grupo, não é crime, nem é grave desde que haja limites. Limites  impostos pelos valores, costumes e normas de conduta da sociedade.
Se a manipulação é feita num grupo cujo líder recorreu ao recrutamento ilegal, à mentira, à extorsão, aos negócios ilícitos, à pedofilia, à violação sexual, ao crime, à violência, esta passa a ser crime e perigosa. Exemplo disto são as seitas religiosas ou outras.
Fui alertada para o problema, das seitas, quando surgiu, na televisão, em Portugal, a Igreja Universal do Reino de Deus que seduzia as pessoas enumerando problemas sérios, facilmente sanáveis, segundo eles, com a ajuda de Deus, com fé, a troco do dízimo.
Como é possível alguém submeter-se, facilmente, perder valores, conhecimento, a noção da realidade, o pensamento, o raciocínio e a razão?  
As situações de dificuldades pessoais, familiares, profissionais e financeiras deixam os indivíduos vulneráveis, frágeis, levando-os a juntarem-se a um grupo, teoria religiosa, terapia individual ou em grupo, que lhe cria a noção de “Homens e Mulheres Supremos”, com vista à normalização da sua vida esquecendo-se, por completo que, normalmente, há um preço a pagar pelo bem-estar absoluto. O preço é a escravidão, o domínio e a impossibilidade de se livrarem das amarras.
Como consegue “um homem” desligar tanta gente do mundo real?
A primeira coisa que o líder faz é levar as pessoas a efectuarem um corte. Um corte físico, psicológico e afectivo com o mundo exterior. Fá-lo introduzindo ideias falsas, alterando a percepção dos adeptos, relativamente ao interior e exterior do grupo.
O líder ou comunicador tem um nível de conhecimento muito elevado que vai desenvolvendo, ao ponto de anular a vontade e o querer do grupo, ao ponto deste lhe obedecer inconscientemente. Conseguem distorcer os sistemas de conhecimento, a seu favor, obtendo tudo o que querem, inclusive a vida, como aconteceu com a seita “O Templo do Povo”.
Ao fecharem o grupo, evitando, assim, a entrada de informação exterior, que descaracterizaria o grupo, correm, no entanto, o risco de que este, por sua vez, entre num processo de entropia, de desordem, que levará à perca de identidade, gerada pela desorganização e caos.
Mas, os líderes, optam, sempre, pelo encerramento do grupo. Este perde a noção da realidade do mundo exterior mas, o guru, irá sentir-se omnipotente, detentor de um desgoverno comportamental, para com a comunidade que o segue e o sistema normativo da sociedade.
Por sua vez o grupo, isolado socialmente, deixa-se escravizar física e mentalmente, demonstrando desequilíbrio pessoal e grupal.
O comunicador prende os ouvintes com a ajuda dos seus ajudantes, que facilmente distingue no meio do grupo, pessoas facilmente manipuláveis, em quem se apoia para influenciar os outros, com passos de magia, falsos poderes e milagres fabricados.
Destrói a personalidade, a vontade própria, as relações sociais, modifica hábitos e comportamentos, primeiro por sedução e, por fim, por coação.
É criada, aos seguidores, a noção que todos estão errados. Tudo está mal, menos eles, os detentores da verdade suprema.
Para o ingresso obriga-os a entregarem, à seita, tudo o que possuem, empecilho para o bem-estar espiritual. Após isso e o corte de relações com os familiares  estes ficam vulneráveis, submissos à vontade do líder, prontos para serem manipulados.
O líder tem em vista o seu proveito financeiro, o domínio dos outros, o poder.
Para conseguir os seus objectivos, necessita de recrutar indivíduos em situação de fragilidade pessoal ou social, pessoas com bens, que acreditam na dádiva do céu e da terra como paraíso, brindando-os com um clima de amor, compreensão, aceitação incondicional, que eleva a auto-estima, criando um sistema de felicidade, bem-estar e segurança aparente.
Estas pessoas ao entrarem na comunidade reaprendem a viver, de acordo com as leis impostas pelo incontestado líder, que tem explicação sábia para tudo, para os seus actos de extorsão, violação e violência do sistema.
A pouco e pouco a vida na comunidade passa a ser um pesadelo e, aí, o líder ajuda à correcção, resultado das suas fraquezas espirituais, segundo ele. Se os seguidores se mostram renitentes na correcção do seu comportamento, os coadjutores do líder aplicarão as sábias punições físicas e simbólicas, com vista ao seu silêncio. Quando estas punições e os milagres do líder deixam de convencer há sempre uma forma de acabar com eles: antecipa-se-lhes a entrada no além.
O fim das seitas é, muitas vezes, a morte em grupo quando o líder perde o controlo, sobre o ele ou sobre a sociedade envolvente. O silêncio eterno.
Não deixem entrar este silêncio. A vida está mesmo aí ao lado, com os seus problemas, dissabores, as suas alegrias e querenças e com a salvação do vosso poder.
Publicado no Blog Just a Woman em 4 de  Março de 2010
Brown Eyes
Foto do Google

7 comentários:

A. João Soares disse...

Amiga Brown Eyes,

Seja Bem vinda a este espaço. O seu primeiro artigo tem um significado muito especial, com um tema sempre actual e que não se fica limitado na seita religiosa, mas aplica-se em muitas organizações sociais.
O que nos deve amedrontar mais não são as exaltações dos «maus» mas o silêncio dos «bons», dos bem comportados que, como ovelhas abúlicas, aceitam a exploração pacificamente, impassivelmente, sem o mínimo gesto da «indignação» a que Mário Soares repetidamente se referia, depois de deixar de ser PR.
Quando as pessoas despertam da sonolência que lhes foi induzida, podem ser pouco serenas, mas é preferível correr alguns riscos do que deixar que continuadamente, sejam xploradas na sua inocência anestesiada. A Tunísia e o Egito deram exemplo de um povo evoluído, inteligente e sereno e de governantes que mostraram compreender que o seu dever não era de esmagar o povo, cortar pela raíz a sua vontade de liberdade e a sua própria vida, ao contrário do que está a acontecer, criminosamente, na Líbia.
Ninguém é de ninguém. Ninguém se deve deixar amarrar, a ponto de não poder pensar e escolher o que é melhor e rejeitar a opressão e aqueles que só pensam nos seus próprios benefícios e vaidades. Ninguém tem o direito de submeter uma nação, aplicando-lhe pesticidas como se os cidadãos fossem micróbios que lhe estragassem a sua seara pessoal.

Cara Brown Eyes, é um prazer tê-la como elemento desta equipa que a recebe com carinho. Há seis meses este espaço beneficiou de uma crise inesperada, que encarou como desafio e entrou numa fase muito auspiciosa. Passado meio ano, a amiga entra como uma vencedora, trazendo uma das jóias do seu blog que é um repositório de belas reflexões filosóficas que merecem ser apreciadas e que, agora,vêm valorizar esta montra de temas para todos, para procurarmos melhorar a humanidade neste momento histórico em que estamos e a entrar.
Bem haja e continue com este tipo de colaboração.

Beijos
João
Do Miradouro

Luis disse...

Minha Boa Amiga ,
É com muito prazer que a temos no nosso convivio. O seu post revela o seu cuidado numa vivência sadia e alerta-nos para os perigos que advêm dos seres humanos cairem nessas redes das seitas. Há uns anos, quando ia diáriameente almoçar com um amigo e passavamos, na Alameda, deante do ex-cinema Império, agora transformado num templo da Igreja Universal do Reino de Deus, assistiamos a um espectaculo indecoroso que era o seguinte: Cá fora um apaniguado do lider com um microfone falava para o interior fazendo crer que seria alguém do Além... Tudo isso até seria ridiculo se não fora o propósito de levar as pessoas a acreditarem nessa seita e a contribuirem com as suas parcas economias para o seu lider viver num luxo asiático. Há o aproveitamento do estado de espírito das pessoas para serem manipuladas e usadas sem qualquer critério sério!
Continue a colaborar connosco que é muito benvinda!
Um beijinho muito amigo e solidãrio.

Celle disse...

Brown Eyes!
Chegando atrasada para cumprimentá-la e dizer-lhe da nossa alegria de te-la aqui conosco. Sinta-se em casa e fique a vontade para fazer suas publicações.Faço minhas as palavras do João e do Luis e tudo faremos para que se sinta satisfeita e feliz entre nós!
Seu texto onde comenta e análisa a Igreja Universal e demais seitas que hoje se encontram por todos os lados, e abusam da simplicidade das pessoas, de sua dor, das suas necessidades e credulidades, foi muito bem elaborado! Parabens!
Um abraço amigo!
Celle

Fê-blue bird disse...

Amiga Brown Eyes!!!
Que surpresa!!!
Estive o fim de semana no Algarve cheguei à pouco e recebo um email do amigo João a dizer que fazes parte deste excelente grupo de amigos e colaboradores.
Não podia receber melhor notícia :)
Quanto ao teu texto foca um assunto muito polémico e que dá pano para mangas. Excelente como são aliás todos os teus textos.
BEM VINDA!
Beijinhos

A. João Soares disse...

Amiga Brown Eyes,

Está de parabéns, pela recepção de todos os colegas verdadeiramente colaboradores que manifestaram o seu agrado por a terem na equipa. Esperamos que se sinta sempre bem e que nos ensine a sermos melhores, pois a nossa característica comum é sentirmos que andamos sempre a aprender uns com os outros. Cada um de nós tem o seu conjunto de qualidades e defeitos (quem os não tem?), que dão um somatório positivo com vista aos objectivos a que estamos dedicados.

Muito obrigado por se ter junto a nós. Conte com a nossa amizade e espírito de equipa.

Beijos
João
Do Miradouro

Brown Eyes disse...

Queria pedir desculpas por só hoje ter tido oportunidade para passar por aqui a agradecer os comentários recebidos. Queria, ainda, agradecer os excelentes comentários recebidos aos quais não poderei responder um a um, como gostaria, a minha vida, como disse ao João, não me permite ter muito tempo livre. Este é o motivo que me leva a estar ausente muitas vezes, não conseguindo fazer as publicações que pretendia nem acompanhar os blogs que sigo como gostaria.
Mais uma vez obrigado a todos.

A. João Soares disse...

Amiga Brown Eyes,

A sua justificação, que compreendemos, serve para neste momento explicar aos colegas colaboradores aquilo que se aplica a todos. Estamos aqui por prazer e não por obrigação. Cada um publica quando puder e desejar. Sem dúvida, todos nos dedicamos aos nossos blogues e aos nossos visitantes e procuramos trazer aqui aquilo que considerarmos com maior valor e interesse.
Foi mais ou menos isto que lhe transmiti quando a convidei. Por isso, a sua explicação tem apenas o significado de uma amabilidade sua que nos sensibiliza.

Beijos a todas as senhoras e um abraço ao Luís, hoje em dia da sua festa anual.

João
Do Miradouro