20/11/2011

O QUE REPRESENTAM OS "INDIGNADOS"!


Do blogue "Abrupto"

As caixas do correio electrónico estão cheias de centenas de mensagens reproduzindo um texto não assinado, mas de autoria no chamado movimento dos "indignados" que tem organizado manifestações enquadradas num movimento internacional com várias designações, mas nas quais a palavra "ocupação" é central. As mensagens electrónicas circulam com uma série de títulos de que são exemplo: "suspensão do pagamento da dívida já!", "ocupem as ruas, ocupem o mundo", "culpados responsabilizados e punidos", "democracia directa já". O texto original parece não ter título e passamos a identificá-lo como "a Situação", da primeira frase: "A situação que Portugal atravessa..."

O movimento dos "indignados" é apenas uma parte dos movimentos sociais de protesto que têm vindo a sair à rua nestes tempos de crise, e é claramente distinto dos protestos que sindicatos e partidos como o PCP têm vindo a promover. Embora haja uma franja comum, mais ligada ao Bloco de Esquerda, a unificação dos dois sectores do protesto social ainda não se deu e existem profundas diferenças de origem social, composição etária, escolaridade e "cultura" organizacional e política.

O movimento dos "indignados" (uma classificação que merecia mais precisão) resulta de uma amálgama de vários movimentos inorgânicos que têm expressão na Rede e no Facebook, com papel activo de remailers, muitos dos quais radicais de direita, mais o M12M, o Ferve, o Precários Inflexíveis, movimentos da "geração à rasca", na maioria ligados ao Bloco de Esquerda, e depois grupos politizados mais tradicionais da extrema-esquerda e da direita, incluindo os minoritários trotsquistas do BE, o colectivo da revista Rubra, a Ruptura/FER, o que resta do MRPP e do POUS, alguns grupos anarquistas e monárquicos, movimentos de género, feministas, LGBT, ecologistas, defensores dos direitos dos animais, e new age.


No seu conjunto eles são a mais genuína expressão pública do protesto da classe média "baixa", no jargão do marketing e das audiências, ou seja, aquilo que no jargão marxista é a pequena-burguesia. A origem de classe, a localização urbana e suburbana, a composição etária (mais jovens), a composição em termos de formação (maior escolaridade e educação formal, professores, "activistas" culturais, intelectuais, "artistas", ou melhor, "intermitentes do espectáculo"), a estética do protesto, tudo gera uma identidade própria, como já referi, muito distinta da que sai à rua nas manifestações da CGTP.O texto que estamos a comentar, a "Situação", é um típico exemplo de um escrito intelectual para intelectuais, que parte do pressuposto que é para ser lido na Internet, com ligações que funcionam como citações, por exemplo de Paul Krugman, e que implicam um conhecimento, pelo menos mediático e online, de alguns casos como o da Islândia. A referência a Paul Krugman funciona hoje como canónica para a esquerda e mistura-se com uma mescla de ideias muito superficial e de que não é difícil encontrar as fontes. O resultado é um texto muito pobre do ponto de vista analítico e político, mesclando exigências populistas, que têm a sua origem no Correio da Manhã e nos remailers, e um vocabulário esquerdista que em Portugal tem uma genealogia, entre outros, no "pintasilguismo", vivo no pensamento de Boaventura de Sousa Santos.

Comecemos pelo simples diagnóstico do texto: estamos numa crise internacional, cuja responsabilidade "exclusiva" é "da implantação de uma economia neoliberal, dependente exclusivamente da atitude corrupta de banqueiros privados irresponsáveis e de governantes que, consecutivamente, têm alimentado os seus bolsos". A crise não é, em nenhuma circunstância, responsabilidade do "povo" "porque gastou mais do que devia nos últimos anos ". O novo Orçamento dá continuidade à mesma política, com a agravante de "planear privatizar bens comuns tão necessários como a água", um dos "claros exemplos da corrupção da máquina política". Isto nada tem de original, é, em termos muito simplificados, o mesmo que o PCP, a ala esquerda do PS e o BE dizem.


Que soluções são propostas para esta crise? A "suspensão do pagamento da dívida pública já", uma auditoria "cidadã" para se "apurar que parte da dívida pública portuguesa é, de facto, da responsabilidade dos cidadãos" (...) e, "responsabilizar os verdadeiros culpados já". Esta linha da responsabilização (que pelos vistos influenciou a JSD...) exige "uma auditoria ao funcionamento das instituições públicas, com apuramento de ilegalidades e responsabilidades criminais e que conduzirão à suspensão do pagamento de dívida nos casos pertinentes, nomeadamente no caso das parcerias público-privadas e aquisições fraudulentas". O resultado antecipado é "que muitos dos cidadãos não são responsáveis pelo grosso da dívida e de que a acção irresponsável dos bancos privados teve consequências nefastas para os países". O vocabulário moralista é o do Bloco de Esquerda, a reivindicação da criminalização da política é do populismo de direita e de esquerda.


Para além dos múltiplos advérbios "já", uma das mais adolescentes das palavras, o modelo de resolução da crise que é apontado é o da Islândia: "Enquanto os demais resgataram os banqueiros e fizeram o povo pagar o preço, a Islândia deixou que os bancos quebrassem e expandiu sua rede de protecção social." Esta "solução", que "A Situação" pretende legitimar, é interessante em termos daquilo que os marxistas chamariam "interesses de classe". Não é a nacionalização da banca que é proposta (a solução do PCP do BE, partidos de tradição Marxista e Leninista), mas sim a sua falência, na expectativa de que essa falência traria apenas a insolvência dos banqueiros e dos capitais especulativos. Talvez fosse bom que os autores deste texto perguntassem aos seus pais se gostariam de ver desaparecer as suas magras economias e PPR depositados na Caixa Geral de Depósitos, evaporarem-se de um dia para o outro, quando os bancos "quebrassem".

Esta Vulgata sobre a crise não se distingue do que para aí circula, populista, demagógico e inconsequente. Porém onde "A Situação" e os "indignados" vão mais longe é na rejeição do "sistema que mina o verdadeiro modelo de democracia", ou seja, a democracia parlamentar. A defesa da "democracia directa" está no centro das ideias dos "indignados": "A actual democracia é baseada numa sociedade por acções de responsabilidade muito limitada: os políticos e banqueiros lucram, nós pagamos." No meio da confusão do texto expõe-se o que se pretende "alterar": "É preciso que o povo comece a ter mais voz, mais participação e mais consciência política - para que não continuemos a depender de um Parlamento que só em parte é eleito por nós e que continua a não defender os interesses comuns."

Os autores de "A Situação" não são revolucionários: não querem derrubar o capitalismo, apenas fazer falir a parte "corrupta" do sistema, e pelo caminho não terem que pagar nada; não querem uma ditadura do proletariado, nem na fórmula edulcorada que hoje o PCP e o Bloco usam, mas um vago governo em "assembleia permanente" em que os "acampados" falam muito a sério e votam ainda mais a sério, olhando para a Assembleia da República onde está "um Parlamento que só em parte é eleito por [eles]", presumo que o PCP, o Bloco e os Verdes, e outra parte representa a corrupção e o Mal. Eles que estão ali à frente, em muitos casos nem cem pessoas, consideram que a sua "Assembleia Popular" representa a "democracia directa", onde o povo tem mais voz, mais participação e mais consciência política".


Num certo sentido, eles são os filhos primitivos do Bloco de Esquerda, que tomam à letra as injunções de Louçã contra "economia injusta" e que não percebem que ele só diz isto assim porque não pode enunciar a sua real política no seu vocabulário canónico. Os mentores e dirigentes do Bloco são marxistas que não ousam chamar o nome verdadeiro ao que defendem, embora saibam muito bem qual é esse nome. A paráfrase moralista em que envolveram o seu marxismo comunica bem com o catolicismo esquerdista, com uma new wave vagamente religiosa e cósmica, ecologista e uma muito Zeitgeist recusa da ordem e do Estado. Enquanto os pais do Bloco de Esquerda conhecem muito bem as suas fronteiras com o radicalismo de direita, os seus filhos "indignados" comunicam sem dificuldades com todas as ideias antidemocráticas que para aí circulam: são contra os partidos, contra a "política", contra os "políticos", contra o parlamento, como são contra os bancos, os ricos e os polícias.

Sem rigor poder-se-ia dizer que são apenas "anarquistas", mas são outra coisa melhor expressa pela designação subjectivista de "indignados". Não são enragés, mas "indignados" com uma agenda em que a indignação é muito instrumental, uma agenda confusa, caótica, simplista até dizer chega, mas que representa hoje a verdadeira força da "classe média baixa": na crise que vivemos é uma força com futuro e, quando abandonar o folclore dos "indignados", e se juntar nas ruas às filas disciplinadas da CGTP, como fizeram os professores, então a coisa fia mais fino

(Versão do Público de 12 de Novembro de 2011.) © José Pacheco Pereira

6 comentários:

A. João Soares disse...

Caro Luís,

Texto longo, repetitivo, que não apresenta nada de positivo para se resolver a situação» actual.

Apesar de, a partir de dada altura, não ler com muita atenção, por não gostar de perder tempo, pareceu que o autor se limita a destruir tudo o que não está acomodado ao actual estado de coisas. Quer transmitir a ideia de que isto está óptimo, mas há uma maduros que gostam de dizer mal!!!

É lamentável que o autor, com o nome e a audição que tem, não nos forneça algumas ideias para saída da crise, para alimentar a esperança em tempos melhores e evitar eventuais «suicídios».

É curioso como um ex-comunista venha agora atribuir as culpa da crise ao facto de o povo ter gasto mais do que devia. Mas gastou assim porquê? Não foram os bancos que alimentaram a ideia de vá de ferias e pague depois? Não são os bancos que, a propósito de qualquer informação aos clientes, oferecem computadores e outros aparelhos a prestações? A ignorância do povo para a gestão doméstica não resulta de um ensino sem interesses prático? Quem é que faz os programas do ensino, não é o ME? Quem decidiu fazer vários estádios de futebol que terão de ser demolidos? Quem abriu auto-estradas que pouco trânsito têm? Quem gastou tanto dinheiro na expo 98? E no Euro 2004? etc, etc.

Temos que manter a cabeça fria e avaliar o valor de cada panfleto» que nos chega ás mãos. Há coisas que devem ir para a «reciclagem» sem hesitação, «já».

Abraço
João

A. João Soares disse...

Caro Luís,

Sobre este tema, sugiro a leitura do seguinte post

Novo Ditador Europeu

Abraço
João

A. João Soares disse...

Caro Luís,

Convém ver também

Lagarde diz que uma recessão como a de 2008 está a “desenrolar-se perante os nossos olhos”

Convém que José Pacheco Pereira esteja consciente de que «A verdade existe. Só as mentiras são inventadas»

Anónimo disse...

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