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16/06/2010

"Um dia ainda vais ser poeta, Ana.”

Ana vende doçura em frascos. Enche-os de compota de fruta, tapa-os e cola-lhes uma etiqueta, mas em vez de escrever compota disto ou compota daquilo, de amoras ou de pêssego, de marmelo ou de morango, escreve apenas Doçura. Senta-se no passeio com os frascos em frente, expostos no asfalto, junto aos pés, e não lhe faltam clientes. A compota vende-se muito bem e ninguém regressa para reclamar, quem compra julga que a doçura está toda nos olhos de Ana.

Ana vende a doçura que tem no olhar e a doçura que embala nos frascos de vidro. É isso o que faz, sentada no passeio do Mercado, pelo menos desde que desistiu de escrever poemas.

Na escola, a professora da Ana não se cansava de lhe gabar a delicadeza das composições que escrevia. A professora ordenava às crianças que escrevessem uma composição sobre isto ou aquilo, sobre a Primavera ou sobre o Natal, e o que Ana fazia era sempre igual, escrevia no topo da folha pautada a palavra Composição com essa mesma letra indecisa e pequena que hoje lhe serve para escrever Doçura nas etiquetas dos frascos de doce – e depois deixava que a cabeça a levasse para longe, para o mundo impalpável das coisas que estão escritas nas páginas dos livros. Escrevia sobre bosques impenetráveis e montanhas verdejantes, sobre belos guerreiros medievais e cidades de prédios muito altos, ainda que não houvesse na sua terra nenhuma das coisas que descrevia e, por isso, ela nunca tivesse visto bosque algum, nenhuma paisagem alpina ou um príncipe que fosse. E um dia, mais do que gabar-lhe a composição e afagar-lhe o cabelo, a professora disse "Um dia ainda vais ser poeta, Ana."

E a Ana conseguiu imaginar que era poeta, que escrevia livros iguais aos que gostava de ler à noite. Cresceu, por isso, julgando que, um dia, escreveria poemas e frases bonitas sobre a sua terra, sobre o Natal que tanto amava, que as crianças das outras partes do mundo leriam o que escrevesse e sonhariam com a lua cheia que vem namorar o mar.

Eu que vivo no outro lado do Mundo, longe do mar, num prédio alto e cinzento, igual aos que Ana imagina quando tem que escrever uma composição sobre A Cidade.
Desta janela, tendo defronte apenas as janelas gémeas de um prédio igual, encosto a face ao vidro da varanda e adivinho o frio que faz lá fora (todo o frio me parece muito desde o dia perverso em que o Verão termina).
É aqui que encostado ao vidro, espero que venha o raio morno que o sol derrama quando se eleva acima da massa sombria dos prédios da cidade.
Então, e por um instante, fecho os olhos, esqueço o Inverno e imagino que ainda é Verão, que a cidade lá fora é a Praia onde está sentada a Ana, no passeio a vender Doçura desde o dia em que soube que não seria poeta.

Eu sei bem o que sente Ana quando se lembra que não será poeta. Sei-o porque houve um tempo em que tentaram convencer-me, entre outras falsidades, que alguns dos textos que escrevia possuíam qualidades que os aproximavam da poesia.
Hoje, porém, estou convencido de que o esquecimento é o melhor destino que lhes posso dar.
Escrevo prosa, portanto, e faço-o talvez porque isto me permite ser um pouco poeta; algo como um poeta sem talento para escrever versos. Sei apenas, quanto muito, imaginar e sonhar. E escrever composições que imagino semelhantes às que Ana redigia na escola, que falam de mundos que eu não conheço, mas que invento a partir das paisagens que existem nas imagens e nos livros. Esta tarde estou a escrever sobre a Ana.

As pessoas passam e vêem Ana, a vender a Doçura em frascos.
Muitas param para comprar, uns levam apenas a compota, outros vêm pela imensa doçura que há nos olhos da menina moça, pelo sorriso imenso que o rosto dela desenha.
Quando regressar a casa depois de ter vendido todos os frascos, Ana levará o dinheiro apertado na mão, firmemente, feliz por ter vendido toda a compota e triste por não ter podido ser poeta. Vai caminhando de cabeça erguida, devagar, como se o seu andar fosse uma pausa entre a ida veloz dos passos de uns e a vinda apressada dos passos dos outros. Vai inventando poemas que não escreverá jamais, embora Ana ainda pense que ainda é poeta, que são poemas as frases com que imagina príncipes e cidades imensas de vidro e aço.
Sonha com os livros que escreveria se não fosse menina pobre e a vida tivesse permitido que o vaticínio da velha mestra se concretizasse. “Um dia ainda vais ser poeta, Ana.”

Às vezes, pensando nisto, Ana ainda se entristece. Olhando-a a partir da minha janela do país onde é quase sempre Inverno, vejo que as estrelas que se lhe reflectem no orvalho dos olhos. Vejo isto e enterneço-me. Daqui longe fecho os meus olhos e sussurro bem baixinho a única verdade que existe, para que ela a oiça, que não há no mundo todo maior poema do que vê-la,sentada no passeio, a vender a Doçura que tem nos frascos.
Conto de Jorge Marmelo


Este texto foi publicado Na Casa do Rua há bastante tempo atrás, não tenho a certeza absoluta se o publiquei também aqui ou não. Chamei-lhe na altura, Ana e a sua doçura!
De qualque forma, e porque esta ideia não me sai da cabeça,todo este texto me faz lembrar a nossa Ana e a sua doçura, neste caso noutro contexto, decidi publicá-lo correndo o risco de o estar a repetir.

Gostaria muito de saber se posso contar com todos, colegas, amigos, leitores, editores, para ajudar a nossa querida Ana Martins, a nossa poetisa a concretizar o seu sonho...editar o seu livro de poesias.
Espero obter respostas concretas.

Imagem da Net

Fernanda Ferreira
Na Casa do Rau