Sabendo muitíssimo bem que eu me tinha esquecido do passe em casa, ainda assim obrigou-me ele a comprar um novo bilhete, e eu fiquei danado: “Deixa estar, meu grande sacaninha, que ainda hás-de pagar-me por isto! “ Dias mais tarde, ao subir para a carruagem, avistei-o lá ao fundo e decidi comportar-me como se dele me quisesse esconder - iria ser aquele o dia do ajuste de contas, decidi eu, naquele instante! De propósito, ele esperou até ao momento em que o comboio já estava a entrar na estação, só depois se dirigindo a mim, na altura já à beira da porta, como se estivesse com pressa para sair. Com um mal disfarçado sorriso de gozo, pediu-me então o bilhete; eu fingi-me atrapalhado, apanhado em falta, à procura em todos os bolsos … sem o encontrar. No final desta curta encenação lá consegui, finalmente, “descobrir” onde estava o passe. Então, com ar muito respeitador, coloquei-lho mesmo em frente dos olhos, para que ele o pudesse ver bem: Ele olhou para ele, depois para mim, e o desapontamento, a roçar a frustração, não o conseguia ele esconder. Eu, pelo meu lado, mal conseguia disfarçar a satisfação que naquele momento sentia, estava a rir por dentro; o ajuste de contas estava consumado … e soube tão bem!Vitor Chuva
17-09-2009


