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26/05/2019

A VELHICE É ISTO

«A velhice é isto: ou se chora sem motivo, ou os olhos ficam secos de lucidez»
 22 de maio 2019, Por Maria Eugénia Leitão

Esta frase, de Miguel Torga, foi encontrada em Lisboa, na Avenida dos Estados Unidos da América, pela Constança, e diz: «A velhice é isto: ou se chora sem motivo, ou os olhos ficam secos de lucidez».


Trata-se de uma frase que Miguel Torga inscreveu no seu Diário, no dia 1 de maio de 1974. Nesse dia, em Coimbra, a população saíra para a rua, a festejar, alegremente, a primeiro Dia do Trabalhador em liberdade. Esse dia foi festejado euforicamente por todo o país. Em Lisboa, a multidão juntou-se na Alameda D. Afonso Henriques, para ouvir Mário Soares e Álvaro Cunhal, regressados do exílio.

Cético com tamanha alegria, Torga segue a multidão e questiona-se: «Há horas que são de todos. Porque não havia aquela de ser também minha? Mas não. Dentro de mim ressoava apenas uma pergunta: Em que oceano de bom senso iria desaguar aquele delírio? Que oculta e avisada abnegação estaria pronta para guiar no caminho da história a cegueira daquela confiança?». E termina esta sua reflexão com a frase pintada na parede, num sentimento simultaneamente de desilusão e clarividência.

A verdade é que, com a idade, nos tornamos mais maduros e, como tal, refletimos sobre a realidade, sobre os outros, sobre o que nos acontece com a utilização de maior consciência de nós e do que nos rodeia. É, portanto, natural que, com o passar do tempo, nos tornemos mais ponderados e mais perspicazes.

Por outro lado, quando chegamos à velhice, perdemos certas capacidades, o que nos fragiliza e nos torna mais sensíveis a questões que durante toda a vida procurámos não valorizar. Às mudanças psicológicas acrescem as mudanças físicas que, tantas vezes, nos surpreendem. Diz Cecília Meireles: «Eu não tinha este rosto de hoje, / (…) // Eu não tinha estas mãos sem força, / tão paradas e frias e mortas; / (…) // - Em que espelho ficou perdida / a minha face?».

Passamos o tempo a tentar ser fortes quando, na realidade, não o somos. Construímos barreiras entre nós e o mundo e colocamos máscaras para que os outros não nos conheçam tal como somos e, assim, não nos reconheçam no que, na realidade, constitui a nossa essência, e que tentamos, a todo o custo, proteger. Somos seres frágeis, desprotegidos, que tentam, a qualquer preço, mostrar-se valentes e destemidos. Há, porém, algumas pessoas que conseguem efetivamente ser fortes, revelando uma coragem física e psicológica diferente de todos os que as rodeiam. São pessoas reconhecidamente distintas, líderes natos, que se impõem naturalmente, e são admiradas pelas suas virtudes. Mas, mesmo estas, pela sua natureza humana, acabam por enfraquecer e, na velhice, tornam-se iguais a todos – frágeis, assustados, sós.

É, pois, verdade, como diz Miguel Torga, que a velhice nos faz chorar sem motivo óbvio, apesar de uma longa vida conter sempre motivos, mais ou menos remotos, que podem levar às lágrimas. E, do mesmo modo, a lucidez que se atinge, pelo facto de muito já se ter vivido, sentido, experienciado, também provoca a ausência de lágrimas e a incapacidade para se surpreender com o que de novo acontece ou para se deslumbrar com euforias efémeras.

Valorizar os nossos velhos, mais do que reconhecer o passado, é, no fundo, valorizarmo-nos a nós próprios e ao nosso futuro, num diálogo permanente, mas silencioso.

Maria Eugénia Leitão

03/06/2017

A VIRTUDE DE ENVELHECER



Olá velhote amigo

Eu nunca trocaria os meus amigos surpreendentes, a minha vida maravilhosa, a minha amada família por menos cabelo branco ou por uma barriga mais lisa.

À medida que fui envelhecendo, tornei-me mais amável para mim, e menos crítico de mim mesmo.
Eu tornei-me o meu próprio amigo...
Eu não me censuro por comer um cozido à portuguesa ou uns biscoitos extra, ou por não fazer a minha cama, ou por comprar algo supérfluo que não precisava.
Eu tenho o direito de ser desarrumado, de ser extravagante e livre.
Vi muitos amigos queridos deixarem este mundo cedo demais, antes de compreenderem a grande liberdade que vem com o envelhecimento. Quem me vai censurar se resolvo ficar a ler, ou a jogar no computador até as quatro horas da manhã, ou a dormir até meio-dia? Se me apetecer dançar ao som daqueles sucessos maravilhosos dos anos 60 - 70, e se, ao mesmo tempo, quiser chorar por um amor perdido... danço e choro.
Se me apetecer andar na praia com um calção excessivamente esticado sobre um corpo decadente, e mergulhar nas ondas com abandono, apesar dos olhares penalizados dos outros, os do jet set, aí vou eu.

Eles também vão envelhecer.

Eu sei que às vezes esqueço algumas coisas. Mas há mais algumas coisas na vida que devem ser esquecidas. Eu recordo-me das coisas importantes.
Claro, ao longo dos anos o meu coração foi quebrado. Como não se pode quebrar o coração quando se perde um ente querido, ou quando uma criança sofre, ou mesmo quando algum animal de estimação amado é atropelado por um carro? Mas corações partidos são os que nos dão força, compreensão e compaixão. Um coração que nunca sofreu é imaculado e estéril e nunca conhecerá a alegria de ser imperfeito.
Eu sou tão abençoado por ter vivido o suficiente para ter os meus cabelos grisalhos e ter os risos da juventude gravados para sempre nos sulcos profundos do meu rosto. Muitos nunca riram, muitos morreram antes dos seus cabelos virarem prata.
Conforme se envelhece, é mais fácil ser-se positivo e preocupamo-nos menos com o que os outros pensam. Eu não me questiono mais. Eu ganhei o direito de estar errado. Assim, para responder à sua pergunta, eu gosto de ser idoso.

A idade libertou-me.
Eu gosto da pessoa em que me tornei.
Eu não vou viver para sempre, mas enquanto cá ando, não vou perder tempo a lamentar-me do que poderia ter sido, e não me vou preocupar com o que será o futuro.
E eu vou comer sobremesa todos os dias (se me apetecer).

16/02/2017

ENVELHECER NO CORPO, CRESCER NA ALMA







Envelhecer no corpo, crescer na alma
Transcrição de texto de Rossana Maia Angelini

A vida é aprendizagem constante. Assim, deveríamos encarar todo o percurso que temos a viver. Creio que o envelhecimento do corpo faz parte dessa trajectória e, para muitas pessoas, vai na contramão, pois o corpo envelhece, mas a alma parece crescer, aperfeiçoa-se nesse processo.

Envelhecer deveria nos dirigir para o encontro do amor e da sabedoria constante. Um aperfeiçoamento que precisamos buscar em vida enquanto estamos. Talvez a sabedoria resida nesse caminhar para a serenidade, para a compreensão mais alargada do outro. Entretanto quantas pessoas envelhecem, estão na terceira idade e não se dão chance de crescer na alma, de ser uma pessoa melhor, mais afectiva, mais compreensiva, mais acolhedora.

É interessante olhar para a velhice e ver tanta gente endurecida – pessoas que passaram grande parte da vida hostilizando outras pessoas, julgando, muitas amargas, e que permanecem nesse mesmo lugar, apesar do afeto com que são tratadas por outras pessoas mais humanizadoras. Penso que envelhecer é se dar a chance de confraternizar, de semear carinho e amor. No entanto, como chegar a esse caminho, se a vida foi tão dura e maltratou tanto, por tanto tempo? Como compreender esse movimento?

Muitas pessoas na terceira idade conseguiram dar o salto, perceberam-se e se tornaram melhores, mais amáveis, mais acolhedoras. Porém, muitas ainda permanecem na sua rigidez, no orgulho, no egoísmo, na impossibilidade do afeto, da ternura, de um gesto de generosidade, verdadeiro. Triste!

Muitas pessoas vivem tanto tempo e não se dão conta de que pararam no tempo, olhando para si mesmas como vítimas eternas de seu próprio desamor. Envelhecer requer sabedoria e, acima de tudo, humildade para perceber-se e sentir, verdadeiramente, o outro. Nem todas estão preparadas... Entender tal procedimento, entende-se, mas o convívio torna-se áspero, artificial, distante.

Não é porque envelhecemos que nos tornamos “santos”, o respeito é fundamental por parte de todos, sempre! Agora, o amor...?

Fica o convite à reflexão.

19/04/2016

PREPARA E APROVEITA BEM A VELHICE



Reflexões do oncólogo Dr. Drauzio Varella (recebido por e-mail)

DEFINIÇÕES

a. Terceira Idade: Oficialmente começa aos 60 anos e supõe-se que termina aos 80, mas não há consenso.
b. Quarta Idade ou Velhice: Inicia aos 80 anos e termina aos 90.
c. Longevidade: Inicia aos 90 e termina quando se morre.

VELHICE SAUDÁVEL

Ninguém está são depois dos 50. Sãos estão os jovens: os velhos têm sempre uma ou várias doenças que são próprias da idade.
Do que se trata então é de envelhecer com as doenças controladas e sem complicações.

GENÉTICA

Se queres saber quanto viverás e como chegarás a essa idade, recorda os teus pais. A carga genética é fundamental para estabelecer um prognóstico de vida. Quem teve cancro ou enfarte antes dos sessenta, o transmitirá a seus filhos pelos genes e, por isso, estes terão maior probabilidade de desenvolver as mesmas enfermidades. Logicamente, o desenvolvimento de uma doença crónica requer a presença de vários factores, sendo o genético apenas um deles.

NÃO HÁ PECADO GRATUITO

"Somos o que comemos" dizem os naturalistas, e não falta razão para isso. Se além de teres uma carga genética desfavorável pões 3 ou 4 colherinhas de açúcar em cada café que tomas, saboreias todas as peles do frango assado e deleita-se com o torresmo de porco, estás convertendo as tuas artérias em tubulações entupidas. Não haverá boa circulação, não haverá boa oxigenação o que equivalerá à morte celular ou, dito de outro modo, envelhecimento acelerado e prematuro.
Em consequência, se queres ter uma velhice saudável a partir dos 50 anos, cuida da tua alimentação e deixa de comer coisas químicas e de abusar das gorduras… Um bom café da manhã, um bom almoço e um péssimo jantar são a chave para equilibrar o teu meio interno.

VIVA O TRAGO

Junto com a dieta está a bebida. Abandona todas as bebidas gasosas. Estas podem ser tomadas pelos jovens, nós não. Todos esses líquidos têm carbonato de sódio, açúcar e cafeina. Na nossa idade estas substâncias prejudicam o pâncreas e o fígado até desgastá-los. É melhor tomar água, limonada, sucos… Até a cerveja é preferível, já que se faz com água fervida, tem componentes naturais e não contém sódio.
Por outro lado há bastante evidência clínica que demonstra que o consumo moderado de álcool depois dos 50 anos melhora a qualidade de vida, pois tem três efeitos definidos: vasodilatador coronário, diminui o colesterol e é um sedante moderado. Em consequência, e de forma prática, à hora do almoço ou à noite quando chegas a tua casa e não tenhas mais que dirigir, toma um gole; também recomendados são o whisky, o vinho tinto e a aguardente pura.
Em lugar de tomar nitroglicerina para dilatar as artérias, ou estatinas para baixar o colesterol, ou um valium para acalmar-se, consegues tudo isso com um bom trago. E se o fazes com as pessoas de quem gostas, o efeito se duplica. Porém, uma advertência: consumo moderado equivale a um ou dois copos, porque se exageras todos os dias, o efeito é exactamente o contrário e te matarás mais rápido do que tu pensas.

TÃO-POUCO SEJAS RADICAL!

Isto quer dizer que todas estas regras são boas, porém sem exagerar e, sobretudo, sem dogmatizar. Se fazes um churrasco para a tua família ou amigos não venhas com “não como chouriço porque é muito gorduroso” ou “meu médico me disse para tomar só dois copos”
Nada substitui a alegria e o prazer de compartilhar momentos agradáveis com os que te querem bem; não há gordura nem bebida que não se possa metabolizar numa boa tarde de relaxamento. Os mecanismos de compensação do nosso corpo são ainda pouco conhecidos, porém assim funciona: se desfrutas verdadeiramente o “pecado mortal” dietético ele se transforma em “pecado venial”;


NADA FICARÁ IMPUNE

Isso é absolutamente certo porque tudo o que comas e bebas deixará vestígios e, qual retrato de Dorian Grey, teu corpo te mostrará na velhice. As noitadas de diversão, os excessos de todo tipo farão a vida do velho muito sofrida. E não somente a ti, mas também à sua família.

PERDAS

A principal desgraça para um ancião é a solidão. O habitual é que os casais não cheguem juntos à velhice; sempre alguém vai primeiro, com o que se desequilibra todo o statu quo que sustentava o casal. O viúvo ou a viúva começa a ser uma carga para a família.
Minha recomendação pessoal é que tratem de não perder – enquanto forem lúcidos – o controle de sua vida. Isso significa, por exemplo: eu decido quando e com quem saio, como me visto, a quem telefono ou encontro, a que horas vou dormir, como me distraio, o que leio, o que compro, onde vou morar, etc. Porque, quando já não possas fazer tudo isso, te terás transformado em um peso para a vida dos demais.

SUFICIENTE

Já não tenho mais tempo, pois o trabalho me chama e excrevi isto em uma pequena pausa de 30 minutos. Espero que seja útil.

20/12/2013

CONSELHOS AOS VELHOS E AOS ENVELHECIDOS



1. Poupe um pouco para sempre ser independente financeiramente. Não precisa ser muito, não comprometa o prazer que o dinheiro pode lhe dar em razão de um tempo maior de velhice, que pode até não acontecer, se você morrer antes. Além disso, um idoso não consome muito além do plano de saúde e dos remédios. Provavelmente, você já tem tudo e mais coisas só lhe darão trabalho.

2. Pare também de se preocupar com a situação financeira de filhos e netos, não se sinta culpado em gastar consigo mesmo o que é seu de direito.
Provavelmente, você já lhes ofereceu o que foi possível na infância e juventude, assim como uma boa educação. Portanto, a responsabilidade agora é deles.

3. Não seja arrimo de família, seja um pouco egoísta, mas não usurário. Tenha uma vida saudável, sem grandes esforços físicos. Faça ginástica moderada, alimente-se bem, mas sem exagero.

4. Tenha sua própria condução, até quando não houver perigo.

5. Nada de estresse por pouca coisa. Na vida tudo passa, sejam os bons momentos, que devem ser curtidos, sejam os ruins que devem ser rapidamente esquecidos.

6. Namore sempre, independente da idade, com sua “velha” companheira de caminhada. O amor verdadeiro rejuvenesce. “As Maria-gasolina” estão por aí e, um idoso, mesmo da classe média, é sempre uma garantia de futuro para as espertalhonas.

7. Esteja sempre limpo, um banho diário pelo menos, seja vaidoso, frequente barbeiro, pedicuro, manicure, dermatologista, dentista, use perfumes e cremes com moderação e por que não uma plástica? Já que você não é bonito, seja pelo menos cuidado.

8. Nada de ser muito moderno, tente ser eterno.

9. Leia livros e jornais, ouça rádio, veja bons programas na TV, acesse a internet, mande e responda e-mails, ligue para os amigos.
Mantenha-se sempre atualizado sobre tudo.

10. Respeite a opinião dos jovens, eles podem até estar errados, mas devem ser respeitados.

11. Não use jamais a expressão “no meu tempo”, pois o seu tempo é hoje.

12. Seja dono da sua casa por mais simples que ela possa ser, pelo menos lá você é quem manda.

13. Não caia na besteira de morar com filhos, netos, ou seja lá quem for. Não seja hóspede, só tome esta decisão quando não der mais e o fim estiver bem próximo.

14. Um bom asilo também não deve ser descartado e pode até ser bem divertido e você irá conviver com a turma da sua geração e não dará trabalho a ninguém.

15. Cultive um “hobby”. Seja caminhar, cozinhar, pescar, dançar, criar gato, cachorro, cuidar de plantas, jogar baralho, golfe, velejar, ou colecionar algo.
Faça o que gosta e os seus recursos permitam.

16.Aceite todos os convites de batizado, formatura, casamento, missa de sétimo dia, o importante é sair de casa.

17. Aceite todos os convites de batizado, formatura, casamento, missa de sétimo dia, o importante é sair de casa.

18. Fale pouco e ouça mais, a sua vida e o seu passado só interessam a você mesmo. Se alguém lhe perguntar sobre esses assuntos, seja sucinto e procure falar coisas boas e engraçadas. Jamais se lamente de algo. Fale baixo e seja gentil e educado. Não critique nada, aceite a situação como ela é.

19. As dores e as doenças estarão sempre presentes, não as torne mais problemáticas do que são falando sobre elas. Tente sublimá-las, afinal, elas afetam somente a você e são problemas seus e de seus médicos.

20. Não fique se apegando em religião, depois de velho, rezando e implorando o tempo todo como um fanático. O bom é que em breve, seus pedidos poderão ser feitos pessoalmente a Ele.

21. Ria, ria muito, ria de tudo, você é um felizardo, você teve uma vida, uma vida longa, e a morte será somente uma nova etapa incerta, assim como foi incerta toda a sua vida.

22. Se alguém lhe disser que você nunca fez nada de importante, não ligue. O mais importante já foi feito: Você!

LEMBRE-SE DE QUE:

“O mundo está nas mãos daqueles que têm coragem de sonhar... E de correr o risco para viver seus sonhos”.
“O dinheiro faz homens ricos; o conhecimento faz homens sábios e a humildade faz homens grandes”.
“A VIDA NÃO COMPORTA ENSAIOS, HÁ APENAS UM ESPETÁCULO: a nossa própria vida.Breve, média ou longa... Cada um viverá apenas o papel que escolher
E colherá apenas aquilo que plantar.
São poucas as pessoas que ao se deitarem ousariam dirigir a Deus a prece:
- Senhor!!!! Trata-me amanhã como tratei hoje o meu próximo.
- Se conseguir, será feliz e saberá como agir diariamente.
- Só por Hoje serei plenamente Feliz!!!!
- Amar é libertar...Mesmo se isso dói em nós...

IMPORTANTÍSSIMO

“Todos estamos de visita neste momento e lugar”. viemos de passagem para observar, aprender crescer, amar e depois... Voltar para casa.
NOSSO LUGAR DE ORIGEM

(Recebido por e.mail.)

Imagem de arquivo

18/12/2012

COMO SE MORRE DE VELHICE



                                                                                            Cecília Meireles,
Como se morre de velhice
ou de acidente ou de doença,
morro, Senhor, de indiferença.

Da indiferença deste mundo
onde o que se sente e se pensa
não tem eco, na ausência imensa.

Na ausência, areia movediça
onde se escreve igual sentença
para o que é vencido e o que vença.

Salva-me, Senhor, do horizonte
sem estímulo ou recompensa
onde o amor equivale à ofensa.

De boca amarga e de alma triste
sinto a minha própria presença
num céu de loucura suspensa.

(Já não se morre de velhice
nem de acidente nem de doença,
mas, Senhor, só de indiferença.)

 in 'Poemas (1957)'

Morrer de velhice é uma benção que recebemos da vida; ela permitiu que percorrêssemos um longo caminho, tortuoso, às vezes, mas também com muitos momentos maravilhosos para recordar. O problema é  chegar a essa fase e só restar um corpo enfraquecido à espera que a vida lhe traga a tão desejada morte. 
A indiferença com que é tratada a velhice é tão grande que já matou a alma e toda a vontade de viver; 
o que resta...
isso já não tem importância alguma...
a morte pode levar...


Transcrição do "Começar de Novo" por Emília Pinto


13/10/2007

O Outono humano

Dois idosos «reformadíssimos» que tinham na vida activa ocupado cargos de grande importância e visibilidade e que costumavam encontrar-se em visitas a museus, em pesquisas em bibliotecas e na assistência de espectáculos culturais de elevado nível, cruzam-se numa rua central da capital.

- Olá caro amigo, ainda bem que o encontro e aproveito esta oportunidade para me despedir de si, porque amanhã parto para a minha aldeia natal, Vila Nova de Tázem, no coração da Beira Alta, onde vou passar os últimos tempos da vida.

- Oh meu amigo, não quero acreditar. O senhor habituado à frequência do S. Carlos, aos concertos na Gulbenkian, à visitas aos museus, etc, etc, não vai conseguir viver na pasmaceira da aldeia sem os seus passatempos favoritos e o seu alimento cultural. E para mais, vai sentir a falta do apoio de saúde de que aqui na capital dispõe, de uma maneira ou de outra, e de que na nossa idade não podemos estar afastados.

-Tem muita razão naquilo que me diz. Pensei nisso tudo. Mas, sabe, estou numa idade em que me pode dar uma indisposição e cair para o lado em plena rua. Se isso me acontecer aqui na capital, embora haja bons apoios de saúde, as pessoas passam ao lado e dizem «lá está mais um velho bêbado a curar a bebedeira» e nem pensam em chamar o INEM. Mas se for na minha terra, onde faltam os mínimos apoios de saúde, e em tal caso não haja socorro possível, nos minutos antes de morrer, posso ouvir as palavras dos meus conterrâneos «pobre do senhor Nogueira, era tão boa pessoa e chegou a sua hora». E nada paga, o prazer de, em tal hora, ouvir o nosso nome e palavras de amizade e consideração. Por isso, meu amigo, decidi ir para lá.