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12/11/2012

Reclusos de Viseu dão lição de solidariedade

Segundo a notícia Solidariedade dos reclusos de Viseu alimenta cantinas sociais da cidade, o Estabelecimento Prisional do Campo, em Viseu funciona num edifício dos anos 50, foi inaugurado em 1960 e serviu inicialmente como casa de correcção para meninas. A Instituição dispõe de uma quinta com seis hectares, com um caseiro, Alberto Nicolau, desde 1978, que é o responsável por ensinar os reclusos a trabalhar a terra.

Este emprego útil dos reclusos constitui um procedimento que a actual direcção do estabelecimento prisional vem aplicando desde a sua tomada de posse, em 2003. Miguel Alves, o director, assume-se um defensor do "trabalho dentro dos estabelecimentos prisionais", que considera um factor de reinserção essencial. Este Estabelecimento constitui uma cadeia de regime aberto, com apenas 21 reclusos e seis guardas.

"Quem quiser vir para este estabelecimento tem de fazer uma espécie de contrato, com quatro cláusulas:
- ser responsável e estar disponível para fazer tudo o que for necessário;
- ter um comportamento exemplar;
- estar consciente de que pode ou não ganhar dinheiro;
- e aceitar apenas visitas aos fins-de-semana." Diz o director.

Nesta cadeia não há muros altos e os guardas prisionais são apenas seis. "Cada recluso sabe que esta é uma oportunidade que lhe está a ser dada, para, no futuro, ter uma vida mais qualificada", salienta o director. Para Miguel Alves, o modelo seguido nesta cadeia pretende incutir a noção de que os reclusos "podem ser úteis". "Aqui, são. E queremos que continuem a sê-lo no resto das suas vidas." Este caso dissipa o aspecto de punição e realça o de recuperação e preparação dos reclusos para a vida futura com dignidade e serviço ao País e aos portugueses. É um exemplo a seguir.

Os reclusos que trabalham a terra constituem um grupo ou brigada que tem como missão tratar da quinta, isto é, de limpar e amanhar o terreno para a sementeira, plantar, cuidar e colher os produtos hortícolas destinados a consumo da Instituição, venda a particulares e uma boa parte acaba nas cozinhas dos refeitórios sociais do concelho de Viseu, e armazenar alguns dos alimentos. Além de acto de solidariedade, constitui um trabalho gratificante para homens que o encarceramento não "desumanizou".

A couve e a nabiça são dois legumes cuja colheita se faz por esta altura do ano. Nos últimos dias têm saído, em média, cerca de 60 quilos destes vegetais de cultura 100% biológica. Desde o início do ano, já foram distribuídas mais de duas toneladas de alimentos por instituições de solidariedade. A Cáritas, por exemplo, é uma das instituições que agradece a solidariedade dos reclusos.

Inserido na ideia de recuperação e inserção social dos reclusos pelo trabalho, este sistema abrange também a brigada de obras que recupera o edifício a necessitar de importantes trabalhos de manutenção e, para aproveitar as habilidades de marceneiro de um dos reclusos, dispõe também de uma oficina em que se dedica a restaurar móveis. O artífice diz que lhe abriram a porta para seguir o bom caminho e que o exemplo deste Estabelecimento Prisional deveria ser seguido por outras prisões porque dentro das cadeias há pessoas que são humanas e têm arte, sendo preciso saber aproveitá-las e dar-lhes oportunidades.


Imagem do PÚBLICO

12/07/2011

Crise, história e mudanças

Aproveito, com alguns retoques, um comentário colocado aqui há dias num artigo que faz pensar na actual situação da Europa, que muitos dizem estar em decadência. Realmente, na vida real do Planeta, tudo tem evoluído de forma sinusoidal, com subidas e descidas, conforma a Natureza e a sucessão das quatro estações do ano. Neste momento estamos em baixo e, para tentar recuperar, será necessário não cometer erros na defesa do futuro do Continente. Mas não se vislumbram políticos com competência e dedicação à causa colectiva em grau que garanta um futuro saudável para os europeus. Vários pensadores o têm afirmado de entre os quais se pode citar o ex-PR Mário Soares.

No princípio da história o poder estava na Ásia, com a China, e o seu Império do Meio a ditar as modas. Mas este império que deixou muitos sinais do elevado grau da sua cultura e ciência perdeu poder, apesar da Grande Muralha construída na dinastia Quin (221-207aC), esteve dominado pela Mongólia nos séculos XIII e XIV, sofreu mais tarde a guerra do ópio e, recentemente, foi invadida pelo Japão, estando agora, depois de poucas décadas de acentuado progresso, a recuperar o seu poder de antanho.

Entretanto, na Europa, os gregos e os romanos atingiram um grau de cultura que impulsionou toda a Europa, mesmo depois da queda do Império Romano. Há seis séculos a Europa, seguindo os descobrimentos dos portugueses, iniciou a primeira globalização, embora com o aspecto negativo dado à colonização que, em vez da prometida difusão da cultura e da religião, se dedicou mais à exploração das riquezas locais (especiarias, ouro e outras).

Na Europa houve um acontecimento, a Revolução Francesa, que embora prometedor, não ocorreu com a maior eficiência e coerência e pecou por erros graves e com más implicações no futuro. Do seu lema de três palavras, uma a Fraternidade, é incontestável e decalcada na mensagem de Cristo, mas as outras , Liberdade e Igualdade, eram contraditórias e mutuamente adversas. Se há liberdade cada um gere a sua vida segundo os seus genes e a sua formação ética e cultural, não podendo daí resultar Igualdade. Para que esta exista, tem que haver autoridade que a imponha, disciplina militar com uniforme, ou moda imposta, o que não deixa lugar para liberdade. Pode dizer-se que se pretendia «igualdade de oportunidades», mas um lema, uma palavra de ordem, não pode exigir um manual do utilizador e este não é lido. E, por isso falhou. A liberdade foi para a libertinagem. E a Igualdade levou a que a guilhotina acabasse com os diferentes. Na mesma altura e com troca de experiências entre os contemporâneos, houve a revolução Americana que não usou o mesmo lema mas valorizou a pessoa e a iniciativa individual, como fonte de inovação, criatividade e via para o progresso. Os resultados diferentes viram-se nos séculos seguintes.

Da colonização nascida da expansão da Europa pela mão dos descobrimentos portugueses nasceu no fim do século XVIII na América aquele Estado que viria a tornar-se a maior potência económica e militar do Mundo. Por seu lado, a Europa iniciou o seu declínio, que não soube gerir de forma a recuperar a grandeza de outrora, e que pecou com as desmedidas ambições napoleónicas e mais tarde com duas guerras mundiais fruto de ambições e rivalidades entre a Alemanha e a França e, por outro lado, a hostilidade insular da Grã-Bretanha.

Terminada a II GM, houve na Europa quem pensasse e bem que a união seria a forma de evitar o colapso, mas não houve aberta adesão e comunhão numa estratégia de futuro, e o mais grave é que não surgiu uma estratégia definida com inteligência que fizesse convergir todas as energias e recursos para um futuro comum de desenvolvimento e bem-estar para os europeus. Não houve o devido respeito por todos que se sobrepusesse às ambições paroquiais de domínio que já tinham mostrado ser nefastas. Os políticos continuaram a olhar para o seu umbigo e a tentar explorar os mais pequenos em beneficio imediato dos grandes. A decadência tem continuado por falta de uma política coerente com um objectivo bem definido e aceite por todos.

Entretanto, depois de muitos abusos em que exauriu os seus recursos, também a América está perante a sua queda, ao mesmo tempo que se levantam os Estados Emergentes em que a China, a Índia e o Brasil se preparam para desempenhar os principais papéis.

Nestas condições, a Europa tem que gerir com muita prudência e determinação a sua marcha pela sobrevivência, definindo claramente e com realismo aquilo que pretende ser na nova ambiência internacional, sem complexos de qualquer espécie, mas com a preocupação de acertar em todas as suas decisões e gerir com prudência as suas relações com os gestores multinacionais do sistema financeiro, tendo sempre presente os próprios interesses de longo prazo. Há que parar de olhar para o próprio umbigo com arrogância e ambição despropositadas. Há que aproveitar as realidades internacionais actuais e controlar o barco da forma mais adequada para evitar um grande naufrágio e conseguir um futuro adequado.

Para isso, precisamos de políticos dedicados à causa pública que usem de competência e boa intenção e sem obedecerem à partidocracia que, erradamente, sucedeu á Democracia.

Imagem do Google