Em conjunto com o seu núcleo familiar mais próximo (marido e filha), vivia um quotidiano preenchido e feliz. Como família, poderíamos classificá-la como estando confortavelmente instalados na vida; tanto ela como o marido tinham bons empregos; a filha estava a estudar na Universidade, e o futuro parecia risonho e promissor.Conviver com os muitos amigos que foram fazendo ao longo dos anos, para além dos familiares, era algo de que muito gostavam, e com frequência punham em prática: a casa parecia estar sempre cheia, uma espécie “de ponto de encontro”, sendo ela, por gosto e vocação, a “animadora de serviço”, exemplo de permanente e contagiante boa disposição. Com o passar dos anos, pelo espírito de iniciativa nela sempre presente, aliado ao comodismo manifestado pelo resto dos amigos, eles acabaram por ter um papel de liderança: eram como que o núcleo em redor do qual o resto de nós, de bom grado, se foi instalando e acomodando.
Professora, no tempo que tinha livre sempre se mostrava disposta a ajudar crianças que porventura manifestassem maiores dificuldades na escola, fazendo-o de graça na maioria dos casos; o género de pessoa de quem normalmente se diz “ter bicho carpinteiro”, sempre com algo de útil ou interessante para fazer. Gostava de escrever poesia , tocar guitarra, sendo que um dos seus passatempos favoritos consistia na recolha de anedotas, versos e ditados populares, além de outras formas típicas de expressão, tendo sempre à mão um caderninho onde ia tomando os seus apontamentos.
Aparentemente, a vida não poderia correr-lhe melhor, tal como para o resto da família, até àquele dia fatídico em que o infortúnio resolveu bater-lhe à porta. O telefone tocou e ela atendeu; do outro lado informaram-na que o marido tinha sido levado do local de trabalho para o hospital, e que, aparentemente, as perspectivas eram mais do que sombrias quanto ao desfecho previsível. Após alguns meses de internamento os seus piores receios confirmaram-se; ouviu as palavras que tanto temia: ele estava paraplégico, confinado a uma cadeira de rodas para o resto dos seus dias. Naquele breve instante, que nele continha todo o seu futuro, o seu pequeno mundo, tão moldado à sua imagem, tinha-se desmoronado: ela sabia que a partir dali a sua vida nunca mais seria a mesma .
Vitor Chuva
03-09-2009
Vitor Chuva