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Dona Rosa no momento de entrega do diploma da licenciatura em Psicologia em Dezembro de 2011 © UAL
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Já tinha 13 anos de idade quando começou a instrução primária mas hoje,
a um mês de completar 90 anos, está a terminar a sua tese de mestrado e
já está a trabalhar na tese de doutoramento. “Andar para a frente” é o
segredo da aluna mais velha da Universidade Autónoma de Lisboa (UAL).
Rosa Andrade veio do Minho, de Arcos de Valdevez, para Lisboa quando
tinha 13 anos para fazer a instrução primária. Depois frequentou a
escola comercial mas casou aos 20 anos “e acabou-se a escola”, conta ao
Boas Notícias.
Do primeiro marido, que faleceu após 14 anos de casamento, teve os seus
dois únicos filhos. O filho mais velho morreu atropelado, aos nove
anos, quando saia da escola. Dona Rosa chegou a criar um infantário,
apoiado pela Misericórdia, em sua memória. O outro filho tem agora 70
anos e deu a Dona Rosa quatro netos e cinco bisnetos.
Foi na Associação Nacional dos Parques Infantis, coordenada pela
poetisa Fernanda de Castro Ferro, que Rosa trabalhou nos primeiros anos
de carreira, como professora de lavores. “Ensinava bordados, costura,
como fazer uma saia, uma camisa, cozer meias… Porque na altura ainda se
remendavam as coisas, agora quando se estragam compramos outras”,
recorda.
Entretanto, a associação faliu e Dona Rosa ficou sem trabalho. Por
pouco tempo. “Estava a ler o jornal e vi um anúncio de um concurso para
alunas da escola de enfermagem nos Capuchos. Tinham curso de auxiliares e
de enfermeiras”.
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| Dona Rosa na cerimónia de entrega do diploma da licenciatura em Psicologia em 2011 |
Como dona Rosa não tinha o 9.º ano do liceu só podia concorrer a
auxiliar. Mas decidiu esperar: “Arranjei um trabalho na casa de uma
professora e usei parte do dinheiro para me preparar para os exames no
liceu Rainha Dona Leonor”.
Enfermeiras não podiam ser casadas
O 9.º ficou despachado e o curso de enfermagem também. Mas depois do
estágio, Dona Rosa não pôde ficar no hospital. “Eu era casada e na
altura as enfermeiras não podiam ter marido. Propuseram contratar-me
como criada, porque as criadas já podiam ter marido. Eu disse que não.
Não tinha andando a ‘queimar as pestanas’ para trabalhar como criada”.
Mas dona Rosa deu bom uso ao curso, ao qual acrescentou uma formação de
enfermeira parteira na Maternidade Alfredo da Costa. Com os cursos na
mão, dona Rosa montou uma empresa de serviços de enfermagem que
funcionou durante cerca de 10 anos, a partir da Praça da Figueira:
“Fazia a assistência ao domicílio a qualquer hora, às cinco da manhã se
fosse preciso”.
Duas licenciaturas depois dos 70 anos
Depois do 25 de Abril, dona Rosa fechou o negócio e foi trabalhar para a
Ordem Terceira e para o Hospital da Estefânia. Fazia turnos nos dois
hospitais quando terminou o 12º ano do liceu, para poder pedir a
equivalência da licenciatura de Enfermagem.
Ainda trabalhava como enfermeira, aos 67 anos, quando se inscreveu na
licenciatura de Sociologia. Mas já estava reformada, aos 70 anos, quando
terminou o curso, em 1995. “Vim embora (do hospital) porque me mandaram
embora, disseram que tinha chegado ao limite da idade”.
Durante 10 anos esteve em casa onde passava a maior parte do tempo a
“ler e a escrever”. “Gosto muito de ler, sobretudo história, livros
científicos e romances”, diz. Mas na Universidade Autónoma não se tinham
esquecido dela e desafiaram-na a frequentar o curso de Psicologia:
“Primeiro achei que não valia a pena mas lá me convenceram. Passei todos
os anos e três anos depois era psicóloga”.
"Andar para a frente"
Agora, com quatro netos e cinco bisnetos, dona Rosa regressou à "sua"
universidade, onde por vezes se cruza com um dos bisnetos que também
estuda na UAL. O maior desafio, admite, é o computador. “Escrevo tudo à
mão e depois passo a computador mas como só uso dois dedos demora
muito”, explica, admitindo que às vezes contrata pessoas para lhe
passarem os trabalhos para o computador. "É bom para eles, que ganham
dinheiro, e para mim que poupo tempo!".
Em Março, Dona Rosa entrega a sua tese de mestrado intitulada “A dor, o
sofrimento e o preço oculto a pagar pela vida”. “Esse preço oculto é a
morte porque não sabemos quando morremos”, diz Dona Rosa admitindo que a
sua experiência como enfermeira a motivou a fazer esta investigação.
O tema da tese de doutoramento também já está definido. Será sobre
“Envelhecimento saudável ativo e o seu genoma”. “É inspirada na minha
pessoa. Não sou uma pessoa doente e não me lembro a última vez que fui
ao médico”, explica.
A um mês de completar 90 anos, Dona Rosa garante que o segredo para uma
vida ativa e preenchida em qualquer idade é “andar para a frente”.
“Acho que não nos devemos desmotivar, se nos agarramos a um sofrimento
vamos mais depressa para a morte”, conclui a futura doutora Rosa
Andrade.