Nas ukiyo-e que exibiam o "mundo flutuante" de cortesãs e geishas, mesmo quando tomam uma forma explicitamente erótica (as shunga), raramente vemos o beijar retratado. De facto, parece que o toque sensual dos lábios, era uma das mais esotéricas técnicas nos manuais da geisha. Em 1930, quando houve uma proposta para que se exibisse em Tóquio a famosa estátua de Rodin - O Beijo - o facto desencadeou manifestações de protesto, e propostas para que se exibisse a escultura com as cabeças cobertas por um pano. Os corpos nús, não apresentavam qualquer problema. Era o beijo que não se enquadrava nas interacções humanas "normais". Por fim, o Rodin só foi mostrado depois da II Guerra Mundial, quando o primeiro beijo apareceu num filme Japonês.
E, se o beijo é uma manifestação do amor, em que ficamos quanto ao Cupido Japonês? Em 1915, T. H. Sanders, um ocidental em visita ao País do Sol Nascente, escreveu no seu livro "My Japanese Year": "O facto é que neste país, o Cupido passa um mau bocado, esta é uma terra desconhecida para ele. Olhares doces, dias de Primavera e noites de luar, deambulações junto ao mar, mão na mão, suspiros e confidências ternas, e todos os outros "ministros do amor", não têm lugar aqui."
Mas, nos finais do século XIX, os intelectuais Japoneses celebravam o conceito de rabu, a fonetização Japonesa da palavra love, uma vez que não dispunham dos sons "L" ou "V" (note-se que o R inicial não se pronuncia como em rato ou rolha, sendo antes um som entre o L e o R). A palavra tinha um brilho extra por conter uma emoção estrangeira algo exótica. O escritor Nagai Kafu, que passou toda a sua vida entre geishas e raparigas de bar (foto abaixo), e desceu ao túmulo com o nome duma geisha tatuado no corpo, escreveu que o momento mais transcendente da sua vida, aconteceu quando trocou algumas palavras com uma jovem Americana em Staten Island. Falaram de ópera, da irrelevância do casamento e da poesia do céu noturno, depois separaram-se com um suave aperto de mão. Love ou Rabu?
Em 1969, ainda podia ler-se, num dicionário de conversação Inglês-Japonês, sobre a palavra "love": "O casamento no Japão é geralmente arranjado pelos pais, e raramente o resultado dum amor mútuo. A língua Japonesa é, por isso, pobre em expressões de afecto (...)."
Referências: T.H.Sanders, My Japanese Year
John David Morley, Pictures From the Water Trade
Lesley Downer, Geisha - The Remarkable Truth Behind the Fiction
Por cortesia da amiga Margarida do Blog Banzai.
Ná
Na Casa do Rau
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20/06/2010
Rabu - Amor em Japonês
Os Japoneses são, por tradição e cultura, um povo contido no que respeita a exteriorização de emoções. Entre os samurais, havia um ditado que dizia que um guerreiro só devia permitir-se qualquer mostra de emoção uma vez em cada três anos. Nós, os Ocidentais, sobretudo os latinos, somos pródigos em manifestações de afecto. Beijos, abraços, palmadinhas nas costas e apertos de mão demorados, são um vocabulário gestual a anos luz de distância das conhecidas vénias Japonesas. Quando se tenta misturar os dois, a coisa nem sempre corre bem...
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