16/07/2010

ACOMPANHANTE DE LUXO

Imagem da net


Percorre as pedras da calçada,
Já gastas, velhas mas intactas
Sorve o silêncio da noite enluarada
E descobre que na vida tem o nada!
Foram anos de mentiras sem afagos,
Que passaram a correr em passos largos,
E hoje na frieza desse quarto,
O dinheiro que ganhou vendendo o corpo,
Deu-lhe o luxo mas com o sabor amargo,
Do passado que repele e quer morto!
Mas na vida tudo tem um preço,
E sofre sozinha os desvarios,
Do amor que negou num arremesso
Sentindo no vazio o seu castigo!


26/10/2008


Inspirado numa história verídica.

14 comentários:

Luis disse...

Minha Querida Ana,
Este poema é lindo e muito verdadeiro. Não precisava dizer que se apoiava numa história veridica pois existem centenas de pessoas que passaram, infelizmente, por esta experiência.
Pode crer que quem viveu e vive esta situação se pudesse voltaria a trás e mudaria de vida pois o Ter não substitui o Ser de forma alguma! E casos há que ainda a agravar apanham doenças de que nunca mais se podem livrar delas. É um mundo cão que quem entra nele raramente consegue sair e quando consegue fica sempre com marcas indeléveis para toda a vida!
Mais uma vez mostrou a sua sensibilidade pela forma como focou este problema!
Um beijinho amigo.

A. João Soares disse...

Querida Ana,

Uma actividade necessária e útil, como se deduz da sua persistência ao longo de séculos e a sua regularização em muitos Países mais civilizados.
Quanto à frase do Luís «se pudesse voltaria a trás e mudaria de vida», penso que não falta «poder» mas falta «querer». Apesar da situação actual de desemprego, há muitas ofertas de emprego não satisfeitas. Há mentalidades pouco esclarecidas que se deixam escorregar pela rampa mais fácil e tentadora, acabando por ser escravas de opções menos ponderadas.
Também já homens nessa actividade. Há poucas semanas uma empresária quarentona, solteira narrava que por vezes ia à discoteca (ou telefonava para o número de um anúncio), cativava um rapaz e ia com ele a troco de uma quantia combinada. Com isso resolvia a sua necessidade sem compromisso posterior, sem obrigação de uma ligação permanente, etc.
A vida real não é tão idílica como a pensamos e desejamos, e cada um devia ser preparado para a gerir da forma mais conveniente evitando sofrimentos.

Beijos
Do Miradouro
João

Fernanda Ferreira - Ná disse...

Querida amiga Ana!

Belíssimo, como sempre, o teu poema.

O tema em si é polémico, mas nós mulheres sabemos bem melhor quantas dessas mulheres são mesmo empurradas para essa vida maldita que as marca para o resto da vida.

Estou-me a lembrar do tema do tema do Carlos Mendes que diz mais ou menos isto:
"Amélia dos olhos doces,
Quem é que te trouxe grávida de esperança?
Um gosto de flor na boca,
Na pele e na roupa, perfumes de França

Cabelos cor-de-viúva,
Cabelos de chuva, sapatos de tiras,
E depois, quantas vezes,
Não queres e não amas
Os homens que dormem,
Os homens que dormem contigo na cama "
/...

A prostituição é dita a mais antiga "profissão" do mundo e chamada por alguns "de a mais fácil"...
É sempre o elo mais fraco o que parte mais depressa.

Havendo como sempre houve mais mulheres do que homens, sabendo que as mulheres foram sempre, e ainda continuam a ser, exploradas, mal tratadas, tidas como seres inferiores, foi fácil domá-las, vendê-las, obrigâ-las a prostituírem-se.
Até os próprios pais, ainda nos dias de hoje, as vendem para esse mercado horrendo.

Discordo em absoluto quando se diz que é uma "Uma actividade necessária e útil".
Necessária e útil para quem???
Não necessariamente para elas e nunca, mas nunca fácil!
Infelizmente é chamada de profissão, facto que mais uma vez eu discordo.

Se as relações humanas fossem normais, sãs e puras...
Se todos os seres humanos fossem visto e tidos em termos de igualdade real, nada disto tinha sentido e não haveria prostituição, ela não seria necessária!!!

Há homens prostitutos e desde sempre. Numa escala talvez menor, e sublinho o talvez, só porque os que se fazem cobrar pelo serviço serão menos. Eles fazem-no por que o querem, porque gostam... muito poucos por necessidade.

Tenho preparado um texto para publicação que de certa forma virá dar continuidade a este.

Obrigada Ana, o tema não podia ser mais oportuno.

Beijinhos

Diverse Texts and Stories

olharbiju disse...

Olá.
Vim cá ter p'lo blog da nossa querida Carmenzita.
Gostei muito de ler, ver tanta fotografia linda, tantos temas intereçantes...
Muitos parabéns.
alice

Luis disse...

Querida Ana,
Os comentários lembraram-me um post sobre a profissionalização desta actividade na Alemanha e os problemas que tem trazido. Realmente considerar isto como uma profissão é, para mim, aberrante!
A Sociedade está por demais permissiva e traz consigo situações gravíssimas!
Um beijinho amigo.

Rogério G.V. Pereira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rogério G.V. Pereira disse...

Cara Ana
Belo poema...

A Fernanda, a nossa NÁ
Foi má
Roubou-me o teclado
(como quem me tira palavras da boca)
Também eu me lembrei da Amélia

Mas lembrei-me também da Geni
É longo e é assim:

De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Com os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir

Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo - Mudei de idéia
- Quando vi nesta cidade
- Tanto horror e iniqüidade
- Resolvi tudo explodir
- Mas posso evitar o drama
- Se aquela formosa dama
- Esta noite me servir

Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
- e isso era segredo dela
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão

Vai com ele, vai Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni

Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir

Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Desculpe-me a extensão
(mas seu trabalho merece cuidado e toda a minha atenção)

A. João Soares disse...

Querida Ná

Não percebo a sua reacção ao meu uso dos adjectivos «necessária e útil». Se essa actividade não os merecesse, não seria «a mais antiga "profissão" do mundo» como a Ná admite. Nada pode resistir tantos séculos se não for necessário e útil. O preconceito leva muitas vezes a desprezar o significado original das palavras. Mas esses adjectivos nada têm a ver com aspectos de moral e de civilização. A Ná volta a admitir a sua «necessidade» na vida prática e real e diz «Se as relações humanas fossem normais, sãs e puras...
Se todos os seres humanos fossem visto e tidos em termos de igualdade real, nada disto tinha sentido e não haveria prostituição, ela não seria necessária!!!» Compreendo com o seu ponto de vista, mas não o vejo totalmente praticável. A fome pode ser debelada porque há pessoas dispostas oferecer a esmola da comida ao esfomeado, mas sem prostituição, não vejo as damas da sociedade dar a esmola de sexo a um pedinte que dele esteja carente.

Entre a virtualidade ideal e a sociedade real, há uma distância muito grande. E o problema não pode ser apreciado apenas com os olhos concentrados numa pequena parte do todo.

Entre o sistema português e o profissionalismo alemão, este é mais benéfico para a sociedade. Também o que existia antes de 1963 em Portugal era preferível ao actua, em todos os aspectos, principalmente no de saúde e moral pública.

O tema merece ser debatido mas não pode haver diálogo com quem se prende obsessivamente a um dos dados do problema.
Beijos, muito respeitosos de pura amizade virtual
João
Do Miradouro

Rogério G.V. Pereira disse...

Ups, esqueci
è do chico
e pode ouvilo aqui

http://www.youtube.com/watch?v=e-cIMoMiFb8

Fernanda Ferreira - Ná disse...

Amigo João,

Não vamos entrar em polémicas desnecessárias, não vou por aí...

Só uma pequena nota. Eu disse "A prostituição é dita a mais antiga "profissão" do mundo".

Julgo nunca ter entrado em contradição, se o fiz não o sinto, mesmo agora relendo o que escrevi no anterior comentário.
Temos opiniões e direito a elas.
Não é pelo facto de as mesmas serem eventualmente divergentes, que vamos "esquentar" a cabeça.

Beijinhos da sua amiga que muito o admira,

A. João Soares disse...

Minha querida Amiga Ná,
«Esquentar» a cabeça???!!! Nunca. O que interessa é fazer ginástica mental, fazer o puzzle dos conceitos e das ideias, sempre de cabeça fria e serena. E é bom acender a polémica, na luta de ideias de forma a que apareçam mais pessoas e a debater o tema. Parece que há pouca gente com vontade de debater ideias. A maioria prefere trocar elogios inconsequentes, até que um dia se zanga, esquece e debanda!!!
Querida Ná, repito que «esquentar» a cabeça deve ser uma coisa que não entra neste jogo de ideias.

Mil beijos
João
Saúde e Alimentação

Fernanda Ferreira - Ná disse...

Amigo João,

Não leve todas as minhas palavras tão à letra.
Afinal nós já nos conhecemos muito bem...
Exercício físico e mental eu faço, disso não devem restar dúvidas nem ao João nem a quem me conhece melhor:))))

Quem vem com futilidades e depois debanda, é porque não se integrou.
Chamo-lhe simplesmente lei natural da selecção.

Há muita gente que está na Blogosfera só para trocar piropos.
Beijinhos

Na casa do Rau

Saozita disse...

Olá querida cunhada, gostei do poema e verifico que é tema controverso, quando debatido. É salutar o debate e o importante é isso mesmo, acrescentar mais alguma coisa, ao vazio de ideias.

Na prostituição, há quem esteja porque para tal foi empurrado, há quem esteja porque é escravizado ( casos recentes de falsos empresários, que prometiam empregos na Europa a jovens de Leste e América do Sul e depois as coajiam a prostituirem-se, e há quem esteja porque quer, que é o caso referente a este poema, para quem o conhece!
A acompanhante de luxo, conheço a história que saíu na imprensa em entrevista dada pela própria, prostituia-se segundo ela, juntando o útil ao agradével, sendo o útil, o dinheiro que conseguia ganhar e que nunca o ganharia de outra forma, e o prazer sexual e material que obtinha.

O arrependimento ou não, virá depois e é subjacente a questões morais e éticas que impregnam a nossa sociedade do ponto de vista conceitual, e que são estigmatizantes, redutoras resultando em descriminação!

Relativamente à legalização como profissão, eu considero correcto com as devidas ressalvas, para que não aconteça o que aconteçeu na Alemanha, chamarem uma mocinha desempregada, para lhe propor trabalho de prostituição e dado que não aceitou, foi-lhe cortado o subsídio de desemprego.
A legalização, permite que essas mulheres possam contribuir para a sociedade como todos nós e tenham direitos, assistência médica, reforma etc. como toda a gente que trabalha... afinal de contas essa é a forma de ganharem a vida.

Beijinhos

acompanhantes disse...

Esse poema acompanhante de luxo e liiiiiiiiiiindo