03/10/2013

ALGUÉM NÃO ESTÁ BOM DA CABEÇA






Há, por esse mundo fora, provenientes da mão do homem, um sem número de belezas à beira mar. Estou a lembrar-me de inúmeras aldeias italianas, de tantas ilhas gregas, de Cascais, das Azenhas do mar, meros exemplos do que se pode fazer de esteticamente enriquecedor à beira mar. É claro que também há os clandestinos em cima da areia, os mamarrachos de madeira e de lata, os monstros de cimento, etc. Uma coisa não tem a ver com a outra, ainda que se possa forçar paralelismos. Umas como outras são propriedade privada. Não é difícil fazer a distinção entre o bom e o mau, o estável e o que ofende o equilíbrio territorial.
Há mais de um século foi instituído o domínio público marítimo, na altura a pensar mais em questões de defesa da costa contra eventuais predadores do que em questões de ambiente ou outras do género.
Com o correr dos anos cometeram-se as maiores barbaridades, umas autorizadas outras não. Também se fizeram coisas bem feitas e dignas de conservação. Na generalidade, foi respeitada a norma da não privatização dos acessos às praias.
Esperar-se-ia que o poder político fizesse as distinções que há a fazer, demolisse, expropriasse, multasse os abusos, as ilegalidades, as intervenções que provocam instabilidade natural.
Compreender-se-ia que o poder político actual, com tanto que tem em que pensar, fizesse um compasso de espera em relação a esta matéria. Mas seria aceitável, ainda que de duvidoso bom senso, que se entretivesse com ela.
Nem uma coisa nem outra.
Parece que o governo quer pôr em acto o domínio público marítimo, tal como foi concebido, salvo erro, nos tempos do Senhor Dom Luís. E como? Pondo em causa o direito de propriedade ribeirinha, caso este não seja anterior a meados do século XIX! É de estalo!
Vamos então expropriar, ou esbulhar, as casinhas das Azenhas do Mar, o palácio Palmela de Cascais, tantas casas na Arrábida, e mais não sei quantos milhares de construções que, não estando de acordo com os cinquenta metros da linha média das marés, foram erguidas com todas e mais algumas das autorizações à época necessárias? Vamos expropriar, ou esbulhar o que, sendo belo e privado, já passou a património, pelo menos estético, do público em geral? Tudo com critérios de meados do século XIX?
Alguém não está bom da cabeça, não sei quem. Já houve casos destes julgados no TEDH, o Estado já foi obrigado a indemnizações de milhões por causa deste tipo de brincadeiras, e é agora, que anda à procura de dinheiro como um cão tinhoso à procura de ossos, que se propõe levantar milhares de processos, muitos dos quais (os mais valiosos) perderá sem apelo nem agravo?
Alguém, lá para os lados do governo ou da administração pública não está bom da cabeça. Ou então, tendo pouco ou nada que fazer, quer mostrar que existe, o que é próprio de burocratas inúteis e, como tal, contraproducentes.
A ver vamos se alguém de bom senso – fala-se tanto em bom senso – manda os autores da brincadeira dar uma grandessíssima volta.
29.9.13
António Borges de Carvalho

Portugal visto por Lobo Antunes





Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida. Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento.
Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos.
Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal-agradecidos, protestamos.

Deixam de ser ministros e a sua vida é um horror suportada em estoico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade.
O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade as vezes é hereditário, dúzias deles.
Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão.
O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meterem os beneméritos em tribunal.
Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito. Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver:
- Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro
- Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima
- Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo
que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia-miúda no coração. E melhoram-nos
obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem-aventuranças da Eternidade.

As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas, ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos sem dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente. Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos.
Vale e Azevedo para os Jerónimos, já! Loureiro para o Panteão já! Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já! Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha.

Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram.
Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito. Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca
vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis.
Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair.
Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano. Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos. Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar.
Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vede. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso. Agradeçam este solzinho.
Agradeçam a Linha Branca.
Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar.
Abaixo o Bem-Estar.
Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo
e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval.
Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros. Proíbam-se os lamentos injustos.
Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa. Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto.
Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar?
O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de,
fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos uns aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.

Duo Paradise Le plus grand Cabaret du Monde